
é escritor, jornalista,
professor de redação e
membro da Academia
Pindamonhangabense
de Letras.
Existiu um menino que amava a escola. Mas que chorou no primeiro dia de aula. A mãe teve de ficar ao lado dele, dentro da sala, nos três primeiros dias, até ele ser capaz de dizer: “Pode ir, mãe”. E começou o encantamento.
Como o poeta Drummond, esse menino também se maravilhava com o “poder de expressão contido nos sinais reunidos em palavras”. Por isso, lia muito e amava escrever.
Existiu um menino que se comprazia em ler, logo no início do ano, todos os textos contidos no livro didático, mesmo com dificuldade para entender os mais complexos, aqueles que só seriam estudados no último bimestre. Ele lia tudo.
E ficava tão feliz quando a professora pedia “composição de texto” que, certa vez, preencheu um caderno inteiro com uma narrativa solicitada como tarefa. A professora nem escondeu o descontentamento por ter de corrigir um texto tão extenso: fixou um limite de linhas para as próximas redações do aluno. Ele obedeceu.
Existiu um menino cujos olhos brilhavam, alguns anos mais tarde, cada vez que uma outra professora lhe devolvia seus textos com a mensagem: “Parabéns! Você vai longe!”. Ele só ia da sua casa para a escola, da escola para sua casa. E voltava chorando quando não tinha aula – naquele tempo, os professores faziam greve com alguma frequência, em busca de direitos e valorização. Ele entendia tudo o que estava acontecendo.
Existiu um menino que venceu um concurso de poesia sobre água – e sua foto saiu no jornal Tribuna do Norte! Depois, ele teve um poema selecionado para uma antologia de autores da cidade. O tema de sua obra poética? Greve de professores. Parafraseando seu poeta predileto, perguntava: “E agora, Fessor?”.
Ah, existiu um menino que colecionava livros da série Vaga-Lume! Na medida do possível, os pais lhe compravam um exemplar por mês – e ele se animava com o que chegava e com os que sonhava adquirir. Amava Marcos Rey, Lúcia Machado de Almeida, Luiz Puntel, Aristides Fraga Lima…
Um dia, leu “O meu pé de laranja lima” e nunca mais esqueceu: “de pedaço em pedaço é que se faz ternura”. Depois, conheceu José de Alencar, emocionando-se com Peri, Ceci, Iracema, Mário, Alice… “O tronco do ipê” nunca mais lhe sairia da cabeça.
Existiu um menino que amava a escola e os livros, isso está claro. Ele nem sabia que seria professor e escritor. Que a escola seria a segunda casa dele, para a qual sempre voltaria feliz e cheio de sonhos. Que escreveria livros para gente grande e gente mais jovem – da sua idade! Poderia imaginar que um livro seu seria distribuído pelo governo para escolas do Brasil inteiro?
Tudo isso porque esse menino foi acolhido com muito amor entre letras e números, lousa e cadernos, livros e sorrisos – esse universo mágico e humano chamado escola. Eis a lição do dia.
Esse menino ainda existe, assim como tantos outros meninos e meninas por esse mundo afora! Ainda bem que sempre existirá escola para eles!
P.S.: Escrevi este texto no dia de meu aniversário. Acho que isso explica a emoção.








