O best-seller local Pindamonhangaba no Século XX, de Gerson Jorio, é um exercício generoso de democratização da memória. Ao folhear suas páginas, o leitor percebe que a história de uma cidade não se faz apenas com grandes nomes e datas oficiais, mas também com os pequenos gestos, as relações cotidianas e as vozes daqueles que viveram cada transformação na pele.
Entre esses agentes históricos tão caros à obra, destaca-se uma figura singular: José Antonio Jorio, o saudoso Seu Zequinha Jorio. Nascido em 1889 e falecido em 1989, atravessou um século inteiro — sendo testemunha direta das profundas transformações do século XX. Assistiu a duas guerras mundiais e à chegada da eletricidade, do telefone, do automóvel e da televisão em cores. Em Pindamonhangaba, viu ruas de terra se tornarem avenidas, charretes cederem lugar aos motores e o comércio familiar florescer nas esquinas que hoje reconhecemos.
Mas o que torna Seu Zequinha inesquecível não é apenas sua longevidade — é a sabedoria que cultivou ao longo do tempo. O autor nos presenteia com pérolas desse avô centenário. Em uma delas, ensinava: “Numa batalha entre urso e jacaré, o que determina a vitória é o terreno.” Uma lição de estratégia e humildade: o ambiente e as circunstâncias moldam qualquer confronto.
Outra de suas máximas tratava da diferença entre inteligência e sabedoria: o homem inteligente sabe o que dizer; o sábio, quando dizer. Um homem prudente, ensinava, não se arrisca com palavras em momentos perigosos.
Para ilustrar, recorria à história da raposa e o leão. Desconfiado de seu hálito, o leão chamou a ovelha e perguntou:
— Sofro de mau hálito?
A ovelha respondeu que sim — e perdeu a cabeça pela franqueza.
Em seguida, chamou o lobo. À mesma pergunta, ouviu um “não” — e o lobo foi despedaçado pela bajulação.
Por fim, chamou a raposa. Diante da pergunta, ela respondeu:
— Majestade, estou com uma gripe fortíssima… não consigo sentir nada.
A moral é simples e profunda: há momentos em que o silêncio e o tato valem mais do que qualquer resposta.
Seu Zequinha Jorio partiu em 1989, no limiar de uma nova era. Mas sua voz ecoa neste livro, lembrando-nos de que memória não é apenas registro de fatos — é também transmissão de valores, afetos e ensinamentos. Cada idoso que cruza nossas ruas carrega um século em suas histórias. Cabe a nós ouvir, celebrar e, como faz Gerson Jorio, inscrever essas vidas na história de Pindamonhangaba — antes que o tempo as silencie.









