
Fundador do jornal Tribuna, devoto do “santo casamenteiro”, comemorava o 24 de junho com animados festejos em sua fazenda no bairro Mombaça
Página de História de hoje recorda outra vez uma inesquecível festa de São João realizada no início do século XX na fazenda do político, jurisconsulto, jornalista, escritor e poeta Dr. João Marcondes de Moura Romeiro.
Nossa pesquisa tem bases no Arquivo Tribuna, edição de 2/7/1905, que na matéria intitulada “O São João no Mombaça” conta como teria sido comemorada a tradicional festança ao santo, há 121 anos, na casa onde passou seus últimos dias o mestre João Romeiro.
Comentando as folclóricas passagens do evento assim inicia o artigo: “Mais uma vez vestiu-se de galas a nossa Mombaça, para receber os amigos e convidados que foram ali passar a noite de S. João. A fazenda ficou apinhada de gente; lá fora, junto da grande fogueira que se erguia no centro do terreiro, os filhos da raça africana dançavam umas danças que eles entendem, acompanhadas de rude instrumento e de um cantar monótono e triste que lembra a situação em que viveram por tanto tempo em nosso país”.
Segundo o artigo da Tribuna, além daquela apresentação junto à fogueira: “Ao lado, e em uns compartimentos separados da casa de morada, ainda duas reuniões; uma, dos nossos campônios, que dançavam ao som da viola que gemia; outra, dos que bailavam ao som da sanfona ou gaita de fole. Lá dentro da casa de morada…”
Esta revelação de riqueza cultural vem iniciar em nós a poética divagação, na qual ficamos a imaginar as opções para bailar: a proporcionada pelos violeiros e suas cantigas ao som dolente das violas, e a estimulada pelos sanfoneiros e gaiteiros, o som que nos convida para a festa… o cantar das sanfonas.
A boa gente reunida
A presença de conceituados convidados naquela festa de São João (a família Marcondes Romeiro sempre foi bem relacionada e querida, independentemente da classe ou posição social) até mereceu, do articulista Tribuna, o comentário expresso nesta quadra:
“Tanta gente assim reunida
não é fácil de se ver.
Jardim coberto de flores
difíceis de se escolher.”
O mano líder político
O jornal Tribuna do Norte, na época identificado como Folha Republicana, era pelo Partido Republicano Municipal, que tinha como líder o irmão de João Romeiro, deputado federal Dr. Francisco Romeiro. Popularmente conhecido como Dr. Francisquinho, o médico tinha vindo do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, onde exercia seu mandato de deputado federal (1903/1911), para prestigiar a festa do mano João.
Contam os da Tribuna que ao procurá-lo na festa:
“Encontramo-lo em um círculo formado por suas cunhadas exmas. Baronesa de Romeiro, dona Amélia Salles Romeiro, dona Mariana Salgado Romeiro, seus irmãos Dr. Matheus Romeiro, Dr. João Romeiro, coronel Romeirinho, seus sobrinhos major Ignacio Bicudo de Siqueira Salgado, João Romeiro (filho), Manoel Ignacio Romeiro, Francisco Romeiro (sobrinho), e outros muitos parentes e amigos. Nunca o vimos tão alegre e satisfeito”.
Gente amiga
Segundo o jornal o que havia impressionado na festa de São João no Mombaça fora a imensa multidão que para lá tinha ido “…só e unicamente por simpatia às pessoas da casa”, ou seja, “as principais pessoas da localidade lá estiveram, e sem outro intuito a não ser obsequiar os que promoveram a festa”.
E destacava: “…assim falo porque não compreendo que um indivíduo, e muito principalmente uma família, seja capaz de expor-se a uma viagem incômoda e maçante, só com o fim de gozar de uma festa de roça, cujo encanto está na companhia das pessoas com quem ali passa se o tempo”.
O dono da festa
Isso não se discutia, era o velho, respeitado e conceituadíssimo Dr. João Romeiro, no entanto, o articulista do jornal Tribuna do Norte revelava-se desconhecedor do idealizador do grandioso evento festivo, e arriscava:
“Dizem-me uns que o senhor João Romeiro Filho, querendo obsequiar sua prezada tia, exma. Dona Amélia Salles Romeiro, viúva do saudoso Dr. Ignacio Romeiro, a qual dignou-se vir de São Paulo passar com sua família uma temporada na fazenda, tratou este ano de solenizar ali com mais aparato a festa de S. João. Outros, porém, querem me asseverar que houve mais alguém que tivesse tomado parte direta em tanta coisa que vimos naquela noite, e que revelava muito trabalho e muito gosto”.
Louvor a São João
O início da parte religiosa da festa se deu às 9 horas, com a chegada da Corporação Musical Euterpe. A banda, que já trazia surpreendente bagagem musical e histórica e que, em agosto, mês seguinte, se tornaria octogenária, fez o acompanhamento aos cânticos religiosos. Atividade esta que foi realizada em frente a um altar devidamente ornamentado onde se destacava a imagem de São João.
Conta a Tribuna que a direção dessa parte religiosa do evento coube ao dono da casa, o Dr. João Romeiro.
O baile
Depois das atividades religiosas houve um pequeno descanso e o tão aguardado baile começou…
“…o baile sim, o baile, porque aquele foi um verdadeiro baile, que correu animadíssimo, e só terminou com o raiar do dia.
Nunca vi dançar-se como naquela noite. Dançou-se tanto, que o dançar causava espanto”, comentou o redator da Tribuna.
Eram já 23 horas quando houve um breve intervalo para o oferecimento de um lanche aos convidados.
Pausa para a poesia
Prosseguindo, aconteceu a atividade cultural e poética daquela festa joanina, “…foram cantadas algumas cançonetas, e recitadas magníficas poesias”.
Segundo a Tribuna, os responsáveis por aquela apresentação haviam sido: “…os senhores Bernadino Jorge, Basílio Pinheiro, Manoel Ignacio Romeiro, Alexandre Monteiro, Mimi Lobato, Paula Salgado e outros”.
Ceia e chocolate
Após o momento poético e inspirador o baile voltou mais animado e só parou às duas da madrugada, quando foi servida a ceia. “Eram 5 horas da manhã quando veio o chocolate. Já não encontrou muitos convidados; porque os que dançavam tinham se deixado vencer pelo sono. Mas ainda havia muita gente que dançava”.
A festa de São João na fazenda Mombaça foi até o raiar de um novo dia.
Hora das despedidas
O artigo comentando essa festa de São João realizada há 121 anos o redator da Tribuna assim concluiu:
“Ao vermos aproximar-se a hora da retirada, o que fizemos bem tristemente, porque, com franqueza, sou um dos maiores amigos de festas, principalmente quando acompanhadas de danças, procurei o meu amigo João Romeiro Filho para lhe agradecer o fidalgo acolhimento que nos dera, e saber se não haveria brevemente alguma outra festa como aquela; e no caso afirmativo pedir-lhe que não se esquecesse de quem tanto o prezava, e estava sempre pronto para o servir. Infelizmente, não pude encontrá-lo, havia de ser 7 horas da manhã. É provável que estivesse repousando um pouco, no que fazia muito bem”.









