O senhor Eustáquio morou na minha infância, no casarão de esquina com quintal enorme protegido por muros de alvenaria. Ele tinha o nariz abatatado e costeletas em homenagem a Elvis Presley. Quando saía de casa, vestia calças boca de sino.
Era só ele aparecer pelas ruas para a criançada gritar: lá vem o Elvis Brega; lá vai o Elvis Brega. Ele ficava maluco: corria atrás de nós prometendo nos dar uma lição inesquecível. Teve uma vez que ele tropeçou na barra da calça e foi de cara na calçada. Coitado! Mesmo com tanto esforço, jamais conseguiu se aproximar de algum de nós.
Quando a minha família veio morar no bairro, o senhor Eustáquio já morava no casarão. E morava sozinho. Minha mãe ficou sabendo que ele era viúvo e não tinha filhos. Quem disse a ela foi o dono da padaria, o senhor Salim Guarudo.
No quintal do casarão existia uma goiabeira com galhos que se debruçavam no muro. No tempo das goiabas, a criançada pulava o muro e fazia a festa. Por isso, o senhor Eustáquio arrumou um cachorro muito bravo. Só ficamos sabendo do dobermann quando o Pirulito subiu no muro.
— Gente! Tem um cão enorme aqui, escancarando a bocarra pra mim! Quem cair no quintal, já era.
Em razão da ameaça canina, começamos a cutucar a árvore com bambus. Mas, assim que o senhor Eustáquio descobriu, cortou os galhos que pulavam o muro.
Durante dias a criançada gritou quando o via: “Miserento! Unha-de-fome! Vai levar a goiabeira pro caixão?” Mas, depois de tantos xingamentos, o senhor Eustáquio passou a nos ignorar.
Teve um ano que eu o vi cambalear na direção da casa dele. Não sei por que fiquei preocupado e decidi ajudá-lo. Sem dizer nada, abracei a cintura dele e o ajudei a entrar na casa. Em vez de me agradecer, ele disse:
— Que essa seja a última vez que você toca em mim. Não preciso de ajuda de moleque furtador.
Em seguida, bateu a porta na minha cara. Por alguns minutos fiquei ali, ao lado da porta, tentando entender a ingratidão do homem e pensei: “Isso não vai ficar assim!”.
Fechei o punho para bater na porta e ela se abriu antes que eu a tocasse. O senhor Eustáquio apareceu com os olhos cheios de arrependimento.
— Me desculpe, rapazinho. Eu me esqueci de tomar o meu remédio. Quando isso acontece, fico muito irritado.
— O senhor vive irritado!
— Não vivo não.
— Vive sim. Dá até medo quando o senhor fica bravo por algumas goiabinhas.
— Não fico bravo por causa das goiabas. Fico bravo porque vocês entram no meu quintal sem me pedir permissão.
— Mentiroso.
— Não acredita? Pois chame os seus amigos. Entrem pela porta da frente e colham quantas goiabas quiserem.
— E o dobermann?
— Ele estará preso.
Mesmo desconfiado, reuni meus amigos e fomos à colheita. O senhor Eustáquio nos recebeu com respeito. Quando estávamos todos trepados no pé de goiaba, adivinhe quem apareceu? O dobermann.
— Ele escapou! Ele escapou! — repetia o senhor Eustáquio entre gargalhadas.









