Quando alguém sofre uma lesão muscular, articular ou óssea, é comum que a primeira preocupação seja descobrir “o que aconteceu” e “quanto tempo vai levar para melhorar”. Uma dor no joelho, uma lesão muscular, uma fratura ou uma tendinopatia parecem, à primeira vista, problemas localizados em determinada parte do corpo.
Porém, uma lesão pode envolver aspectos físicos, metabólicos, emocionais, comportamentais e sociais. Por isso, uma recuperação adequada muitas vezes exige mais do que tratar o local onde dói, é necessário compreender a pessoa como um todo e identificar os diferentes fatores que podem estar contribuindo para o problema ou interferindo na recuperação. Uma lesão raramente é um acontecimento isolado, pois o organismo funciona de maneira integrada.
Uma lesão no joelho, por exemplo, pode estar associada a alterações na força do quadril, na mobilidade do tornozelo ou na estratégia utilizada para caminhar e realizar determinados movimentos. Uma lesão muscular pode estar relacionada à sobrecarga, recuperação inadequada ou fatores metabólicos. Uma fratura ou um trauma importante pode trazer não apenas limitações físicas, mas também medo, insegurança e impacto emocional. É por isso que a reabilitação precisa ir além do local da dor.
Por isso, o tratamento não deve se limitar a “tirar a dor”, o objetivo é recuperar a função, devolver confiança ao movimento e preparar o indivíduo para retornar com segurança às suas atividades cotidianas, esportivas ou profissionais. A integração entre profissionais da saúde é de suma importância para este tratamento.
O fisioterapeuta não deve observar apenas o ponto de dor, mas também mobilidade, força muscular, controle motor, postura, equilíbrio, marcha, capacidade funcional e a maneira como o paciente realiza seus movimentos.
O médico realiza o seu diagnóstico, faz a investigação e acompanhamento das condições que exigem avaliação clínica e, se preciso, pede exames complementares. A avaliação médica pode ser fundamental, especialmente diante de traumas importantes, dor persistente, perda significativa de função, suspeita de outras fraturas ou lesões que necessitem de investigação complementar.
Exames de imagem podem ajudar a compreender a extensão de determinadas alterações. Entretanto, uma imagem também precisa ser interpretada dentro do contexto clínico, pois nem toda alteração encontrada em uma ressonância ou radiografia explica necessariamente a dor do paciente. Da mesma forma, a ausência de uma alteração significativa em um exame não significa que a pessoa não esteja sofrendo ou que não exista uma alteração funcional.
O nutricionista contribui para que o organismo, através da alimentação, tenha energia e nutrientes adequados aos processos de recuperação. A participação de um nutricionista é importante para adequar a alimentação às necessidades individuais, considerando idade, composição corporal, nível de atividade física, tipo de lesão e condições clínicas. Além disso pessoas com comorbidades, como diabetes e hipertensão, tem um percentual de recuperação mais lento.
O psicólogo, quando necessário, auxilia na relação do paciente com a dor, as limitações, a ansiedade e o medo de voltar a se movimentar, além das frustrações que a lesão ou dor podem provocar na vida social, no trabalho e lazer do paciente. Isso não significa que a dor seja “psicológica”, a dor é uma experiência real e complexa, influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais. São olhares diferentes para uma mesma pessoa.
Na minha visão, uma das maiores evoluções da saúde está justamente em deixar de tratar apenas a estrutura lesionada e começar a compreender o indivíduo como um todo. Não tratamos apenas um joelho, um ombro, uma coluna ou um músculo, tratamos uma pessoa que tem uma história, uma rotina, emoções, hábitos e objetivos.
Dessa forma, quando diferentes profissionais conseguem unir seus conhecimentos em torno dessa pessoa, a reabilitação deixa de ser apenas o combate à dor e passa a ser um processo de reconstrução de movimento, autonomia e qualidade de vida
A reabilitação verdadeiramente eficiente não busca apenas reparar uma estrutura. Busca reconstruir capacidade, confiança, autonomia e qualidade de vida. E talvez essa seja uma das maiores mudanças na forma de compreender as lesões: tratar o corpo é fundamental, mas tratar a pessoa é indispensável.









