Hoje o papo vai ser um pouco nerd, ok?
Esses dias eu estava deitada na minha cama — que, por enquanto, divide o mesmo quarto com a minha mãe. Somos colegas de quarto temporárias. Enquanto eu fazia vários nadas, rolando o feed do celular como qualquer mortal, minha mãe estava concentrada no videogame. Sim, minha mãe joga videogame. E mais: ela ama um bom RPG. Eu também amo. Infelizmente, meu querido videogame está longe de mim no momento. Foi então que, do nada, ela pausou o jogo, olhou para mim e perguntou:
— Filha, por que será que, depois que a gente zera um jogo, resolve jogar tudo de novo e só então percebe um monte de coisas que ainda tinha para fazer?
Ela me fez pensar e por alguns segundos, achei que era só mais uma conversa aleatória sobre games. Mas aquela questão ficou martelando na minha cabeça. E sabem porquê? porque não era apenas sobre videogames.
Quem joga videogame provavelmente já passou por isso. Você termina a campanha principal, vê os créditos subindo na tela e pensa: “Acabou.” Mas não acabou. Quando abre o mapa, percebe que ainda existem dezenas de missões secundárias, personagens com histórias incríveis, lugares que você nunca visitou e segredos escondidos o tempo todo. A sensação é inevitável: “Como eu não vi isso antes?” A resposta é simples. Na realidade, durante toda a jornada, você estava olhando apenas para o final.
A vida funciona de um jeito muito parecido. Desde pequenos, aprendemos que sempre existe uma missão principal. Passar de ano. Entrar na faculdade. Conseguir um emprego. Comprar uma casa. Alcançar o próximo objetivo. E, enquanto corremos atrás da próxima fase, deixamos de notar as sidequests. As sidequests são aquele café demorado com um amigo. A conversa que muda um dia inteiro. O hobby que parece não servir para nada, mas faz a gente se sentir vivo. A aula que parecia comum, mas desperta uma paixão. O professor que acredita na gente antes mesmo de nós acreditarmos. Elas nunca parecem urgentes. Por isso, quase sempre são ignoradas.
E o problema não é querer chegar ao final. Ter objetivos é importante e eles dão direção. O problema é imaginar que a vida só começa quando alcançamos esse objetivo. E na verdade, quando chegamos lá, outra missão principal aparece. E outra. E outra. Se esperarmos viver apenas depois da próxima conquista, pode ser que, descubramos tarde demais que passamos pelo mapa inteiro sem explorar o que havia de mais interessante.
Nos videogames, sempre existe a opção de começar de novo e fazer diferente. Na vida, não. Mas existe algo ainda melhor: perceber isso antes que os créditos comecem a subir. E a maior recompensa nunca tenha sido derrotar o chefe final. Mas que ela, sempre tenha estado nas pequenas missões que escolhemos viver pelo caminho.









