Manhã dominical de vento e garoa. Apesar do inverno rigoroso, decidi fazer o meu desjejum na melhor cafeteria da cidade. Coloquei chapéu, forrei-me com casacos capazes de sobreviver no Polo Norte e saí caminhando.
A maioria dos estabelecimentos estava fechada. Pouca gente nas ruas. A cafeteria que ficava perto do meu apartamento iniciava as atividades no fim da madrugada. Atravessei um par de ruas e entrei na cafeteria. A delicadeza do ambiente era realçada por músicas eruditas. Escolhi a mesa de canto, por ser a mais discreta, e fiz o meu pedido. Quando a garçonete depositou a bandeja sobre a minha mesa, ouvi som de cascos no asfalto.
O cavaleiro era um homem com um cigarrinho de palha pendurado no canto da boca. Com ele, estava a moça de queixo tocando o colo. Apearam, amarraram os burros no poste e entraram. A moça agarrada à barra da camisa dele. Ao se aproximar do balcão, o homem falou com voz de trovoada:
— Marrei os burro no poste. Argum pobrema?
Diante do silêncio, bateu a mão no balcão e perguntou:
— Aqui vende café dos bão? Quero um pra quentá o frio. Pão tamém.
André, o dono da cafeteria, veio atendê-los.
— Sentem-se, por favor. Vou providenciar.
Sentaram-se. André foi e voltou com o pedido. O cavaleiro puxou conversa.
— Seu garção, cê conhece o genhero?
— O senhor quer dizer engenheiro? Qual o nome dele?
— Nome num sei não. Cê sabe, fia?
A moça sabia, mas balançou a cabeça negativamente.
— Conheço alguns. Mas sem o nome fica difícil.
O cavaleiro sorveu goles de café e disse:
— Da roça inté aqui é uma baita lonjura. Num vo perdê viaje! Peraí! Eu sei quelé um home de zóio cor de mér. Num é baxo, nem arto. Tem um bigodinho de penuge.
André girou a cabeça na minha direção. Fiz um sinal e ele entendeu.
— Sinto muito. Mas por aqui não conheço ninguém com essas características. Mas me diga: por que o senhor quer se encontrar com esse tal engenheiro?
— Esse miserento pareceu lá na roça dizeno que quiria namorá a minha fia. E falô um monte de sem-vergonhice prela. Falô óscro e amprécosso. Eu puis ele pra corrê. Dispois que ele picô a mula, ela dexô de comê, num qué drumi, num qué fazê nadica de nada.
Enquanto conversavam, chamei Julieta, a minha amiga garçonete. Expliquei a situação a ela e lhe pedi um favor. Em seguida, ela foi até a mesa do cavaleiro e perguntou:
— O senhor aceita um amplexo? Cortesia da cafeteria.
O homem arregalou os olhos.
— Virge Maria! Cê também fala essas bobagera? Amprécosso!
— Não é bobagem, não, moço. Vou lhe dar um amplexo e um ósculo. O senhor aceita?
O homem se levantou e atirou algumas notas sobre a mesa.
— Lave a boca, moça. Sô casado. Tenho famia de respeito. O genhero falô a mema coisa pra minha fia. Se ele num tivesse fugido, eu ia rancá a pele dele. Mais ocê é muié. Muié num merece panhá.
Nesse instante, me levantei, fui até eles e perguntei se eu podia dar um ósculo e um amplexo em Julieta. Ela consentiu. Então eu a abracei e a beijei na face. A moça comprimiu os dentes e franziu o cenho.
O matuto me reconheceu e cerrou os punhos. Depois berrou:
— Tão pensano que sô ingnorante? Eu tavo só enganando ocêis. Ceis num credita? Arguém aqui duvida de eu?
Neste instante, um dos burros zurrou!









