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Traduttore, traditore

Dia desses, em uma conversa com amigos, ríamos sobre a inusitada tradução do título do filme The Physician para O Físico. Uma tradução bastante literal, comentei (“e incorreta!”, esbravejou um amigo). De fato, incorreta: o termo em inglês “physician” não significa, na nossa língua, “físico”, e sim “médico”. Obviamente, um erro de tradução. Mas devo confessar que, apesar de neste caso o erro ser indefensável, como tradutora, quase sempre parto em defesa desses importantes profissionais da linguagem, dos quais só nos lembramos quando encontramos seus malfadados erros. É como se tradutores só existissem quando há algum problema na tradução.

E isso não acontece à toa. Por séculos e séculos, o tradutor ideal tem sido aquele que trabalha em silêncio e de forma invisível, deixando que brilhem no idioma-alvo as palavras do autor. Ou seja: se uma tradução é boa, os louros são do autor. Se é ruim, vixe, a culpa só pode ser do tradutor! O próprio ditado italiano “Traduttore, traditore” (“tradutor, traidor”), por exemplo, reforça a ideia de que a tradução seja uma atividade, digamos, ardilosa e passível de interferências inconvenientes por parte do tradutor.

Mas, olhando pelo outro lado da moeda, devemos nos lembrar de que, na opinião de muita gente, Paulo Coelho só teve aquele estrondoso sucesso comercial no exterior graças a alguns de seus tradutores, que tornaram seus textos melhores e mais interessantes – o que eu não duvido. Para o bem ou para o mal, não há como negar a ideia de que traduzir é, em última instância, uma atividade criativa.

Aliás, não apenas criativa, mas essencial para a história da humanidade. Sem a tradução, não teríamos acesso a grandes clássicos da literatura e a informações de documentos históricos que hoje nos ajudam a entender de onde viemos. A própria internet seria um projeto inconcebível. Sim, leitores: não fosse pelo nosso humilde tradutor-traidor fazendo a ponte entre diferentes culturas, o mundo seria uma grande Torre de Babel (embora às vezes a sensação seja exatamente essa). Ah, e vejam só: sem a tradução, nem mesmo os textos bíblicos teriam chegado até nós.

Mas chegaram, graças a séculos e séculos de trabalho tradutório, começando pelas freiras copistas que, dia e noite, auxiliavam São Jerônimo em sua tradução do original para o latim (e uma curiosidade: o dia de São Jerônimo, 30 de setembro, é também o dia da tradução e o dia das secretárias).

Agora, reflitam comigo: se até a Bíblia, um dos textos mais lidos e traduzidos da história, passou por séculos de traduções, revisões e escolhas humanas, talvez seja ingenuidade nossa imaginar que a tradução tenha sido, algum dia, uma atividade pura e imune a erros. Uma tradução perfeitamente neutra, transparente e sem interferências? Talvez só uma máquina fosse capaz de prometer isso. Mas essa é uma história para a próxima crônica.

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Thaís Bueno
Thaís Bueno
Tradutora, professora de inglês e doutora em línguas aplicada pela Unicamp.
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