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Surubudu

A chuva começaria a qualquer momento. A velhinha de olhos azuis postiços, com sandálias de couro, vestido de crochê encardido e lenço na cabeça, perambulava pelas calçadas com uma sacola pendurada nos ombros.

O rapaz estava voltando do trabalho. Assim que estacionou, a mulher atravessou a rua e o abordou:

— Quer comprar um surubudu?

— O quê, senhora? — perguntou, abrindo a porta do carro.

— O senhor quer comprar um surubudu?

— Surubudu? Não, não. Obrigado.

— Tem certeza?

Ele saiu do carro. Estava cansado, necessitando expulsar as tempestades do trabalho debaixo do chuveiro. A mulher insistiu:

— E então… Vai um surubudu?

Ele teve que se conter para não mandar a mulher para aquele lugar.

— Senhora, eu não quero comprar nada.

E deu-lhe as costas para destrancar o portão e entrar em sua fortaleza. A mulher olhou o céu e disse com urgência:

— Preciso ir embora. Se o senhor não comprar, vai se arrepender.

A paciência dele esgotou.

— Escuta aqui! Para não ser indelicado, vou dizer pela última vez: eu não quero comprar nada, muito menos um suru… Sei lá o quê.

Ela olhou dentro dos olhos dele.

— Não acredito que o senhor não sabe o que é um surubudu!

O rapaz, que não admitia ignorar nenhum assunto, disfarçou.

— Saber eu até sei… Só não estou me lembrando neste momento. E se não estou me lembrando, é porque não é importante.

A mulher enfiou a mão na sacola, tirou uma pedrinha azul e explicou:

— Surubudu concentra a magia da prosperidade. Ele é capaz de transformar maltrapilhos em milionários.

Ele destrancou o portão. A esposa apareceu.

— Amor, essa é aquela sua avó que faz tempo que você não vê?

— De jeito nenhum! Desde quando eu tenho uma avó maluca tentando me vender uma pedrinha que faz enriquecer?! Tenho não!

A esposa, que era devota do esoterismo, se interessou.

— Faz enriquecer? Hum! Quanto é?

— Duzentos.

— Faz por cem?

— Cento e cinquenta.

— Fechado.

O marido pagou. Fazer o quê! Antes de ir embora, a velhinha explicou:

— A pedrinha de azul-perpétuo é um pedacinho da estrela Rigel, da constelação de Órion. Mas, cuidado! Ela perde os poderes se tiver contato com água.

O casal abriu o portão e entrou no momento em que um trovão espremeu algumas nuvens. A chuva começou e derramou alguns pingos na pedrinha. O azul-perpétuo se desmanchou. A tinta era de péssima qualidade.

A velhinha de olhos azuis desapareceu. Provavelmente, continua vendendo pedras mágicas por aí, e multiplicando o seu dinheiro.

Proseando - Maurício Cavalheiro

Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro
Membro da Academia Pindamonhangabense de Letras, da UBT União Brasileira de Trovadores e da ABRASSO Academia Brasileira de Sonetistas. Finalista do Prêmio Barco a Vapor – 2024 e do 1º Prêmio Bem-te-vi de Literatura para a Infância – 2025. Possui prêmios literários no Brasil e no exterior, e livros publicados nos gêneros poesia, infantil, romance, teatro, contos e cordel.
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