Eu tinha seis anos quando Daniela Perez foi assassinada. Naquela idade, eu não sabia exatamente o que significava a palavra “assassinato”. Muito menos feminicídio.
Não conhecia estatísticas, relações de poder, misoginia ou violência de gênero — esses termos que a gente aprende depois que cresce, tentando dar nome às coisas horríveis que descobriu cedo demais. Mas eu entendi que uma mulher tinha morrido. E que um homem tinha feito aquilo.
Daniela era jovem, bonita, famosa. Estava na televisão. Tinha um rosto conhecido, um sorriso conhecido, uma vida que, para uma criança, pertencia àquele universo quase mágico das pessoas que apareciam na tela. E, de repente, estava morta. Eu tinha seis anos e aquele foi um dos meus primeiros choques de realidade com a monstruosidade da qual um homem pode ser capaz. O problema é que Daniela não seria o último nome. Nós crescemos aprendendo nomes de mulheres mortas.
Antes dela, houve Ângela Diniz, assassinada em 1976 pelo homem com quem se relacionava. Depois de matá-la, ainda tentaram colocar a própria Ângela no banco dos réus. Sua vida, sua sexualidade e suas escolhas foram usadas para construir uma justificativa moral para sua morte. Como se uma mulher pudesse viver de um jeito tão inconveniente que matá-la se tornasse compreensível. A reação ao caso ajudou a popularizar uma frase que passaria por décadas: Quem ama não mata. É assustador perceber que ainda precisamos repeti-la.
Depois veio Maria da Penha. E aqui existe uma diferença fundamental: Maria sobreviveu. Sobreviveu às tentativas de assassinato cometidas pelo marido, às marcas permanentes em seu corpo e a anos de impunidade. Seu nome acabaria batizando uma das legislações mais importantes do país no enfrentamento à violência doméstica. Mas pense na perversidade disso: para que o Brasil avançasse na proteção das mulheres, uma mulher precisou quase morrer.
Então veio Eloá. Uma adolescente de 15 anos mantida em cárcere privado pelo ex-namorado. O país praticamente assistiu à violência acontecer. E Eloá morreu. Outra vez, um homem incapaz de aceitar que uma mulher — naquele caso, uma menina — pudesse decidir que não queria mais estar com ele.
Depois, Eliza Samudio. Mudam os nomes, as histórias e as décadas. Mas existe uma pergunta que insiste em aparecer quando uma mulher é assassinada: “O que aconteceu entre eles?” E, escondida atrás dela, muitas vezes existe outra: “O que ela fez para ele fazer isso?” Nada. Não existe traição, separação, roupa, profissão, vida sexual, mensagem no celular, ciúme, discussão ou rejeição que transforme uma mulher em propriedade de alguém. E é esse seja o coração dessa conversa.
O feminicídio não começa necessariamente quando um homem mata uma mulher. Pode começar muito antes. Quando controle é confundido com cuidado. Quando ciúme é vendido como prova de amor. Quando “onde você está?” deixa de ser pergunta e vira fiscalização. Quando uma mulher precisa calcular como terminar um relacionamento porque teme a reação dele. Quando um “não” é recebido como provocação. Mudaram as décadas, mas algumas frases continuam assustadoramente parecidas: “Ele não aceitava o fim.” “Era muito ciumento.” “Eles tinham um relacionamento conturbado.” Ele dizia que não conseguiria viver sem ela.”
Quantas vezes ainda vamos ouvir essas frases antes de entender que nenhuma delas é romântica? E é por isso que penso numa frase que, à primeira vista, pode soar terrível: Prefiro ser Elize do que uma Eliza.
Sim, é desconfortável. Tem que ser. Elize Matsunaga matou e esquartejou o marido. Não há heroísmo nisso. Não há glamour e não há nada a ser romantizado. A frase não significa “quero matar antes que me matem”. Significa que existe algo profundamente errado numa sociedade em que tantas mulheres conseguem compreender imediatamente o medo escondido nessa comparação.
Pois bem, entre Elize e Eliza existe muito mais do que uma letra. Existe a mulher que percebe a mudança no tom de voz. Que manda a localização para uma amiga. Que pensa duas vezes antes de dizer não. Que tenta terminar em um lugar público. Que aprende cedo que alguns homens não precisam ser monstros o tempo inteiro para serem perigosos no momento em que percebem que perderam o controle sobre ela.
Eu tinha seis anos quando Daniela Perez morreu. Naquele momento, eu ainda não sabia explicar nada disso. Hoje eu sei os nomes. Violência doméstica. Violência contra a mulher. Misoginia. Feminicídio.
Mas existe uma parte de mim que gostaria que aquela menina de seis anos nunca tivesse precisado aprender nenhum deles. O mais doloroso é saber que, enquanto escrevo esta coluna, outras meninas estão tendo seu primeiro choque de realidade.
Talvez não seja Daniela. Talvez seja uma mulher que apareceu no jornal ontem. Uma vizinha. Uma professora. Uma prima. A própria mãe.
E daqui a vinte ou trinta anos elas também poderão construir uma linha do tempo da violência contra as mulheres usando nomes próprios. Daniela. Ângela. Eloá. Eliza. E tantos outros. Eu não quero que a próxima geração memorize mais nomes.
Quero que Ângela Diniz pertença à história. Que Daniela Perez pertença à história. Que Eloá pertença à história. Que Eliza Samudio pertença à história.
Não a uma lista que continua sendo atualizada. Porque terminar um relacionamento não deveria ser uma sentença de morte. Rejeitar um homem não deveria ser um ato de coragem. Dizer “não” não deveria exigir uma estratégia de sobrevivência. E amar uma mulher nunca, absolutamente nunca, deu a homem algum o direito de decidir se ela vive ou morre.
Quem ama não mata. Décadas depois, ainda precisamos dizer. E portanto, essa seja a nossa maior vergonha.









