Outro dia me peguei pensando em uma coisa que, sinceramente, me incomoda faz tempo: quando foi que envelhecer virou motivo para diminuir alguém?
É curioso como a sociedade trata a velhice. Ao mesmo tempo em que diz respeitar os idosos, faz piada com eles, os chama de ultrapassados, pressupõe que não entendem de tecnologia, que não aprendem mais, que já passaram do tempo de produzir. E, quando não faz isso, vem o outro extremo: trata como criança, como se toda pessoa idosa tivesse perdido a capacidade de decidir por si mesma.
Nenhum dos dois é respeito.
Tenho 40 anos e, olhando para a minha vida, percebo o quanto mudei. Quantas pessoas conheci, quantas vezes quebrei a cara, quantas alegrias vivi, quantas despedidas enfrentei. Existe uma bagagem que só o tempo entrega. Não dá para comprar. Não dá para aprender em um curso. Ela vem junto com as cicatrizes.
Então eu olho para a minha avó. Ela tem o dobro da minha idade.
Se em quatro décadas eu já acumulei tantas histórias, imagine alguém que viveu o dobro disso. Alguém que atravessou mudanças que eu só conheço pelos livros, que viu o mundo se transformar diante dos próprios olhos, que precisou reaprender a viver várias vezes.
Isso não significa que ela esteja certa sobre tudo. Ninguém está. A idade não torna ninguém dono da verdade. Mas também não torna ninguém descartável.
O que me entristece é perceber que muitas pessoas parecem perder o valor à medida que envelhecem. Isso aparece nas pequenas coisas e nas grandes também. Aparece quando ninguém tem paciência para ouvir um idoso terminar uma história. Aparece quando alguém fala por ele, sem que tenha pedido.
E aparece, principalmente, no mercado de trabalho. As empresas vivem dizendo que procuram experiência. Mas, muitas vezes, basta um currículo revelar uma idade mais avançada para que ele seja deixado de lado. É uma contradição difícil de ignorar. Queremos profissionais experientes, mas nem sempre estamos dispostos a contratar quem passou a vida inteira construindo essa experiência.
É claro que o mundo muda. A tecnologia muda. As profissões mudam. Todos nós precisamos aprender coisas novas, independentemente da idade. Mas aprender não tem prazo de validade.
Acho, também que o problema nunca tenha sido a idade. Talvez o problema seja a nossa mania de medir o valor das pessoas apenas pelo quanto elas produzem.
A verdade é que, se tivermos sorte, todos nós vamos envelhecer. E espero, de coração, que quando esse dia chegar, a gente seja lembrado não pelas rugas que o tempo deixou no rosto, mas pelas marcas que a vida deixou na nossa história. E envelhecer não deveria ser um peso. Deveria ser um privilégio.









