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Quando a quinta série não sai da gente

Aos quarenta anos, cá estou eu: depois de tanto tempo, ainda brinco como a galera do fundão. Faço piadas idiotas, rio até chorar e, quando encontro as pessoas certas, parece que compartilhamos exatamente os mesmos neurônios. Basta um olhar, uma palavra fora de contexto ou bendita frase que não deveria ter duplo sentido, mas tem. Para a quinta série inteira voltar com força. E quer saber? Ainda bem.

No colégio, eu era conhecida como o “Pica-Pau da palhaçada”. Para quem cresceu nos anos 90, acho que nem preciso explicar muito a referência. O Pica-Pau aprontava, provocava, irritava todo mundo, fazia suas presepadas e, no fim, ainda saía dando aquela risada inconfundível. Para mim, ele sempre teve uma energia de anti-herói. Não era exatamente o exemplo de bom comportamento que alguém gostaria de apresentar para uma criança, mas era impossível não gostar dele. E eu tenha trago um pouco dessa essência comigo.

Lembro da professora me colocando de castigo no canto da sala por conversar ou fazer alguma palhaçada. A intenção era, obviamente, me fazer ficar quieta. O problema é que bastava ela virar de costas para eu começar a fazer caretas e gestos para os meus colegas. Eu podia estar de castigo, mas isso não significava que o espetáculo precisava acabar.

O tempo passou, a escola acabou, vieram as responsabilidades, as contas, os boletos, os compromissos e todas as coisas que acompanham a labuta da vida adulta. Hoje sou escritora, roteirista e jornalista. Tenho prazos, matérias para entregar, compromissos, responsabilidades e dias em que preciso resolver mil coisas ao mesmo tempo. Mas aquela menina no canto da sala ainda está aqui. A diferença é que agora ela tem uma carreira.

E certamente uma das coisas de que mais gosto no meu ambiente de trabalho, é justamente poder continuar sendo um pouco assim. Cumpro minhas obrigações, levo meu trabalho a sério, e friso que levo muito mesmo. Mas isso não significa que eu precise me levar a sério o tempo inteiro.

E o mais divertido é que trabalho com pessoas de vinte e poucos até sessenta e poucos anos. Gerações diferentes, histórias diferentes, referências diferentes. Mas, quando a quinta série resolve aparecer, não existe diferença de idade. É impressionante. Às vezes, alguém fala uma coisa completamente inocente e basta um olhar atravessado para outro colega. Pronto. Acabou a maturidade do ambiente. De repente, somos todos alunos tentando segurar o riso para a professora não perceber.

E é isso mesmo, rapaziada, por isso que eu goste tanto do que faço e das pessoas com quem trabalho. Em alguns momentos, é como se eu ainda estivesse em uma sala de aula cercada pelos meus colegas. Só mudaram as carteiras, as matérias e o tipo de tarefa que precisamos entregar. A Amanda de hoje continua sendo aquela Amanda que fazia palhaçada quando a professora não estava olhando. Só que agora eu tenho quarenta anos. E pensando bem, acho chic demais perceber isso.

Porque passamos boa parte da vida ouvindo que precisamos amadurecer. E precisamos mesmo. Amadurecer é aprender a assumir responsabilidades, lidar com consequências, respeitar as pessoas, trabalhar, pagar contas, tomar decisões e entender que o mundo não gira ao nosso redor. Mas em algum momento confundimos amadurecer com ficar sério o tempo inteiro. Como se crescer significasse abandonar tudo aquilo que fazia a gente rir quando era mais novo. E não deveria ser assim.

A quinta série foi um marco para muita gente. É aquela fase em que uma palavra é suficiente para destruir completamente a seriedade de uma conversa. É quando as amizades são construídas entre risadas, apelidos, piadas internas e situações que, décadas depois, ainda conseguimos lembrar. A “quinta série que habita em nós” é sem dúvida a parte que se recusa a envelhecer.

Não estou falando de irresponsabilidade. Nem de passar a vida fazendo piada em momentos inadequados. Existe hora para tudo. Estou falando de preservar a capacidade de achar graça. De rir até a barriga doer. De olhar para um amigo e entender a piada sem precisar dizer uma única palavra. De fazer uma brincadeira boba no meio de um dia difícil. De não permitir que boletos, responsabilidades, problemas e preocupações ocupem todos os espaços dentro da gente. Pois a vida adulta já é séria demais por conta própria. Ela não precisa da nossa ajuda para ficar ainda mais pesada.

Hoje entendo que aquela menina que fazia palhaçada no canto da sala não desapareceu. Ela cresceu comigo. Aprendeu a trabalhar, pagar contas, cumprir horários, escrever matérias, criar histórias e assumir responsabilidades. Mas continua esperando alguém virar de costas para fazer uma careta. E eu espero sinceramente que ela nunca vá embora. Que aos cinquenta, sessenta, setenta anos eu ainda encontre pessoas capazes de despertar a minha quinta série interior.

Até porque, crescer é inevitável. Envelhecer também. Mas ficar sério o tempo inteiro? Isso eu me recuso.

Fragmentos - Amanda Emídio

Amanda Emídio
Amanda Emídio
É bacharel em Jornalismo pela Uninter e roteirista formada pela EBAC – Escola Britânica de Artes e Tecnologia. Escritora com cinco livros publicados, transita entre ficção, drama e narrativas LGBTQIA+, sempre explorando afetos, conflitos e tudo aquilo que a gente tenta esconder — mas escreve mesmo assim.
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