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PRESENTE DE ANIVERSÁRIO

Diante do espelho, ele viu o homem puído: cabelos desbotados, covas penduradas debaixo dos olhos, e rugas progressivas pelo rosto. Seus lábios murchos jamais pousaram em outros lábios. Para ele, beijos e intimidades somente se houvesse amor recíproco.

Desde a primeira paixão ele se escorou na amiga dos bancos escolares, pedindo que ela revelasse o amor dele. A primeira vez que ela assumiu o papel de correio elegante foi no primário. A destinatária ouviu atentamente, mas recusou o sentimento do rapaz e, a partir daquele dia, não lhe dirigiu mais palavra alguma.

A última tentativa de findar a solteirice ocorreu há um ano. A escolhida da vez era a balconista da padaria por quem ele jurava ser correspondido. Segundo ele, os olhares da moça o devoravam.

— É a última vez que peço a você para ser o meu cupido. Tenho certeza absoluta de agora vai dar certo — afirmou ele.

E lá foi a amiga, que esperou o movimento da padaria enfraquecer para se aproximar da balconista.

— Boa tarde! Posso falar com você?

Enquanto trocavam palavras, a amiga o apontou diversas vezes. Ele, que estava à porta da padaria, encabulou-se e escondeu-se. Minutos depois, recebeu a resposta:

— A balconista está noiva, com a data do casamento marcado.

Ele murchou os ombros e, cabisbaixo, ruminou palavras de infelicidade. Para amainar o sofrimento, a amiga o levou embora. Ele se trancou no quarto e, refletindo sobre suas frustrações amorosas, tomou uma decisão.

Na noite em que ele completava cinquenta anos, a amiga chegou com um presente. Ela era a única convidada, como nos anos anteriores.

— Feliz novo ciclo! Mas, antes que desembrulhe o pacote, preciso fazer uma confissão.

Os olhos dele brilharam. O coração tamborilou.

— Vamos nos sentar que eu conto.

Ela segurou nas mãos dele e começou a chorar:

— Enganei você a vida inteira. Todas as vezes que me pediu para falar com uma garota, eu dava um jeito de estragar tudo.

— Estragar tudo? Por que fazia isso?

— Eu sentia ciúmes de você… Me perdoa?

Ele suspirou.

— Não precisa pedir perdão. Tá tudo bem. Me dá um abraço.

Ele enxugou os olhos dela que, em seguida, disse:

— Eu tenho um pedido pra fazer.

— Coincidência. Eu também. Mas faça o seu antes.

Ela olhou dentro dos olhos dele e suspirou profundamente.

— Não vou mais interferir na sua vida. Eu estou namorando e pretendo me casar. Você aceita ser meu padrinho de casamento?

Ele ficou perplexo. Ah, se ela pudesse ouvir o coração dele gritar: “Você quer namorar comigo?”.

Proseando - Maurício Cavalheiro

Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro
Membro da Academia Pindamonhangabense de Letras, da UBT União Brasileira de Trovadores e da ABRASSO Academia Brasileira de Sonetistas. Finalista do Prêmio Barco a Vapor – 2024 e do 1º Prêmio Bem-te-vi de Literatura para a Infância – 2025. Possui prêmios literários no Brasil e no exterior, e livros publicados nos gêneros poesia, infantil, romance, teatro, contos e cordel.
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