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Por que existem tantas solteiras incríveis e tão poucos solteiros incríveis?

Outro dia uma amiga me fez uma pergunta que ficou rondando minha cabeça por dias: “Por que tem tanta mulher incrível solteira e parece que os caras legais entraram em extinção?” Antes que alguém venha com um textão, eu já adianto: não, nem todo homem é tóxico. Nem toda mulher é maravilhosa. Generalizações costumam ser preguiçosas. Mas também não dá para fingir que muitas mulheres heterossexuais vivem exatamente a mesma experiência.

Elas estudam, trabalham, fazem terapia, cuidam da própria saúde, aprendem a colocar limites e, quando finalmente decidem dividir a vida com alguém… encontram um sujeito que mal sabe responder uma mensagem sem desaparecer por três dias. Tenho uma amiga — vamos chamá-la de Maria. Maria é jovem, inteligente, engraçada, independente, bonita. Uma mulher, que ilumina qualquer roda de conversa. Só tem um pequeno problema. Ela possui um talento sobrenatural para escolher homem. Se existir um cidadão emocionalmente indisponível num raio de vinte quilômetros, ela encontra. Se ele morar em outra cidade, ela também encontra. Ela saiu uma única vez com um rapaz. Uma única vez. Pronto. Criou uma paixão. A febre que só existe quando a outra pessoa mal deu tempo de mostrar quem realmente é. O rapaz era bonito. Muito bonito. Também morava com a mãe, tinha a iniciativa de uma planta ornamental e fugia de compromisso com a mesma velocidade que o diabo foge da cruz. Mesmo assim, quase todo fim de semana, lá vinha a mensagem: — Amiga… você pode dar uma olhada no Instagram dele? E lá ia eu. Investigadora particular de relacionamentos fracassados.

A questão, nunca foi por que ele não quis namorar com ela. A pergunta sempre foi outra. Como uma mulher tão interessante consegue ficar emocionalmente presa a alguém que claramente não estava disposto a oferecer nem o mínimo? Será porque a gente tenha aprendido a romantizar migalhas. Uma resposta vira demonstração de interesse. Um “bom dia” vira compatibilidade. Uma saída para tomar café já parece o trailer de um casamento.

Enquanto isso, muitos homens foram educados para acreditar que vulnerabilidade é fraqueza, diálogo é DR e compromisso significa perder liberdade. Resultado? Tem mulher fazendo terapia para aprender a não aceitar o mínimo. E tem homem chamando maturidade emocional de “mulher complicada”.

É claro que existem homens incríveis. Eu conheço alguns. Pais presentes, parceiros gentis, homens que sabem pedir desculpas, conversar, dividir responsabilidades e amar sem transformar isso numa competição de ego. O problema é que eles parecem disputar espaço com uma legião de adultos que continuam agindo como adolescentes de dezesseis anos, só que agora com barba, cartão de crédito e aplicativos de namoro.

Acho que seja por isso que tantas mulheres estejam solteiras. Não porque exigem demais. Mas porque, depois de um certo tempo, descobrem que a própria paz vale muito mais do que qualquer relacionamento que exija diminuir quem elas são.

E afinal, permanecer solteira nunca foi o problema. O problema é sentir que, em pleno 2026, encontrar alguém emocionalmente disponível virou quase uma modalidade olímpica. E isso, convenhamos, merece muito mais debate do que julgamento.

Fragmentos - Amanda Emídio

Amanda Emídio
Amanda Emídio
É bacharel em Jornalismo pela Uninter e roteirista formada pela EBAC – Escola Britânica de Artes e Tecnologia. Escritora com cinco livros publicados, transita entre ficção, drama e narrativas LGBTQIA+, sempre explorando afetos, conflitos e tudo aquilo que a gente tenta esconder — mas escreve mesmo assim.
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