O menino do quarto em frente apareceu à porta e ficou me espiando. Ele deve ter uns sete ou oito anos. Eu o chamei para entrar, mas ele desapareceu. Mais tarde retornou em passos miúdos, entrou no quarto e ficou ao meu lado sem dizer nada. Trazia nas mãos um aeroplano.
O menino tinha a cabeça pelada e os olhos mergulhados em duas covas lilases. Mas o que mais se destacava nele era o sorriso tímido.
Puxei conversa. Falei que o meu pai vivia mais no mar do que na terra, e que eu morava com a minha mãe e a minha irmã numa casa pequenina. Aos poucos ele foi se desprendendo do acanhamento do primeiro encontro.
Ele me contou que não sabia quem era o pai dele, e que a mãe estava morando no céu; que vivia com a avó, e que ela só sabia brigar com ele. Contou que tinha o sonho de pilotar um supersônico e voar até o céu para encontrar a mãe.
Eu estava atento, ouvindo e vendo-o levantar o aviãozinho o mais alto que podia para fazer acrobacias, imitando o barulho do motor. Falei que o aeroplano dele era lindo. Ele falou que estava no lixo da vizinha, por isso tinha asas remendadas com esparadrapo.
Contei que meu pai já havia me levado à Lua, mas de barco. Os olhos dele brilharam. Ele perguntou se podia ir comigo quando meu pai fosse me levar novamente.
— Pode deixar. Quando meu pai vier, chamarei você.
Eu não sabia o nome dele, e ainda não sei, mas comecei a chamá-lo de Piloto. Ele gostou muito. Ele também não sabe o meu nome, mas passou a me chamar de Menino da Lua.
Piloto me contou que não gostava de estudar, porque na escola faziam bullying com ele. Disse que pediu à avó que fosse conversar com a diretora, mas, em vez disso, ela bateu nele com chineladas, falando que ele precisava virar homem.
Pior era quando os outros netos apareciam. A avó os cobria com toda espécie de carinho, algo que Piloto nunca havia recebido. Quando esses encontros aconteciam, Piloto era desprezado o tempo todo, como se fosse um objeto qualquer esquecido dentro de uma gaveta. Ele me segredou que, quando isso acontecia, pulava o muro e ia chorar debaixo de uma jabuticabeira velha que não dava mais frutos.
Piloto queria me contar mais sobre a vida dele, mas a enfermeira apareceu para reconduzi-lo ao quarto. Porém, antes de ir embora, me abraçou e perguntou se podíamos ser amigos, porque ele não tinha nenhum. Eu disse que já éramos amigos e que logo, logo viajaríamos no barco de meu pai.









