Meus avós moravam num sítio enraizado na Serra da Mantiqueira. Sempre que íamos visitá-los, encontrávamos outros membros da família, que era razoavelmente grande.
Todas as vezes, meu avô mais se parecia com uma estátua debruçada na janela do quarto, olhando para as montanhas. Ele dormia sozinho, pois minha avó dizia que não suportava os roncos. A reclusão dele me incomodava.
Algumas vezes tentei entrar no quarto para trocar palavras com ele, mas havia sempre alguém a me advertir.
“Seu avô não gosta de conversar” — dizia minha avó.
“Ele é bravo. Muito bravo” — repetiam os tios.
“Seu avô vive no mundo da lua. Melhor não tirá-lo de lá” — afirmava minha mãe, a filha dele.
Primos e primas tinham medo dele. Apesar de tantas advertências, eu ficava curioso. Como a entrada no quarto era proibida, eu saía da casa, apenas para espiá-lo na janela; e fingia recolher pedrinhas para aumentar uma coleção que nunca tive. E por mais que tentasse encontrar algum perigo nos olhos dele, só conseguia ver tristeza.
Certa vez, me atrevi a pronunciar o nome dele. Ele espichou os olhos, mas, antes de dizer qualquer coisa, meu pai apareceu e me arrastou pelas orelhas.
Naquela noite, aconteceu algo que não sai da minha memória. Acordei com sede e caminhei até a cozinha, onde estava o filtro de barro. No caminho de volta ao meu quarto, parei diante da porta dele. Não havia roncos. Toquei na maçaneta e empurrei a porta, devagarinho.
A janela estava aberta, emoldurando uma infinidade de estrelas. A cama de meu avô estava vazia. Onde estaria ele? Com o silêncio colado nos pés, procurei na casa toda. Nada. Talvez ele tivesse saído para tomar um ar.
Saí pela porta da cozinha e, ao circundar a casa, encontrei uma escada escorada no telhado. Subi. Para minha surpresa, meu avô estava deitado sobre as telhas, olhando para o céu. Ele mexeu a cabeça e me viu deitar também. Não disse nada. Consegui ouvir o tum-tum-tum acelerado do coração dele.
“O senhor está bem, vô? Vamos descer? Aqui é perigoso”.
Favorecido pela lua cheia, vi o canto dos olhos dele umedecer. Ele continuou calado.
“Lá embaixo tem uma cama quentinha esperando pelo senhor. Por que ficar aqui, neste desconforto?”
Ele suspirou e, pela primeira vez, eu o ouvi:
“Desconforto, meu neto, é viver isolado por todo mundo. Aqui em cima, converso com a lua, com as estrelas… e elas me respeitam”.
Depois daquele momento, passamos a sentir necessidade um do outro e, a pedido dele, só nos reuníamos no telhado.
Meu avô foi morar bem perto de Sírius. Eu… não tive a mesma sorte: tenho passado madrugadas inteiras sozinho no telhado.









