Houve um tempo em que ele reclamava por trabalhar aos domingos. Como se não bastasse a semana tensa, ainda tinha que cumprir a escala dos finais de semana. Sábado, tudo bem. Mas domingo? Domingo era dia de pescaria, futebol, churrasco, cerveja e, principalmente, passear com a esposa. Por isso, para evitar o trabalho dominical, várias vezes simulava enfermidades e conseguia atestado dos médicos que lhe garantiam o salário integral. Entretanto, depois que a conheceu, trabalhar aos domingos se tornou prazeroso.
Antoninha é o nome dela. Tinha seis anos, cabelos encaracolados da cor do sol, sardas no rostinho iluminado por olhos azuis. O primeiro encontro foi hostil. Ela o olhou como se fosse o culpado e o puniu mostrando-lhe a língua. A mãe, constrangida, disse: “Menininha malcriada. Pode deixar que darei um jeito nela”.
Para a menina ele era o “inimigo do papai passarinho”. Foi o que ela sussurrou à mãe. Na tentativa de remover a barreira entre eles, ele fez caretas engraçadas. Com o tempo, ficaram tão amigos que ela o promoveu a “cuidador do papai passarinho”.
Em um domingo de inverno, Antoninha chegou de mãos dadas com a mãe, com uma folha de sulfite nas mãos enluvadas e o narizinho vermelho de frio. Aproximou-se e, estendendo a folha, disse a ele: “Fiz pra você”. Era um desenho simples, no qual ela o retratava, exagerando no tamanho da barriga. Logo abaixo da tosca caricatura, estava escrito: “Eu amo o cuidador do papai passarinho”.
Ele beijou as mãos da menina. Sorriu para a mãe dela e tratou de abrir rapidamente a grade para que entrassem. Não queria que o vissem com os olhos cheios de lágrimas.
Como sempre fazia, ficou observando o pinguinho de gente correr para os braços do pai. Ah, como ele queria ser pai também. Mas, infelizmente, a esposa não podia ter filhos. Ele tentou convencê-la a adotar uma criança. Ela entrou em depressão e, mesmo fazendo psicanálise, vivia falando que era uma mulher seca, que não devia ter nascido. Certo dia ele chegou a casa e ela não estava. Havia ido embora sem deixar endereço.
Enquanto ouvia o pai contar histórias para Antoninha, ele suspirava: “Família linda, destroçada por uma briga de bar”.
Enquanto observava a cena, um recluso truculento disse palavras obscenas à mãe de Antoninha. O pai da menina se enfureceu. A esposa tentou separá-los, enquanto trocavam socos. Mas um desses golpes atingiu o pai da menina, que caiu e bateu a cabeça no chão de concreto. Nesse momento, o cuidador do papai passarinho entrou no pátio e resgatou a menina e a mãe, em pânico.
Antoninha ficou órfã de pai. Algum tempo depois, o cuidador se casou com a mãe da menina. Desde então, toda vez que encontra uma gaiola, fosse de quem fosse, Antoninha abre a portinhola e diz: “Liberdade, papai passarinho!”.
O cuidador desistiu de repreendê-la. Hoje mesmo os vi, procurando por gaiolas. Se houver alguma em sua casa, tenha certeza de que, qualquer dia, quando você menos esperar, eles aparecerão para libertar passarinhos.









