Certa vez, uma amiga minha me fez a seguinte pergunta:
— Amiga, se você estiver em uma estrada — vamos dizer que seja a estrada mais linda que você já viu — e, no percurso, encontrar um lindo vaso de flores, você para para admirá-lo e pensa em levá-lo com você ou o deixa ali mesmo? Imediatamente, respondi:
— Eu admiro, mas não o levo.
Ela fez uma cara de quem estava analisando a minha resposta e logo disse:
— O vaso representa a sua família. E você decidiu seguir adiante e deixá-lo para trás.
E continuou:
— Quem me disse isso foi a minha psicóloga. Estou fazendo terapia, e ela me explicou isso.
Naquele mesmo instante, fiz uma pausa dramática, pensei e repensei. Então, respondi:
— É, realmente, eu tenho algum problema mesmo. Em relação aos sentimentos e à minha família.
Eu tinha 17 anos quando fui questionada. Hoje, aos 40, as coisas mudaram muito. Lembrei-me desse episódio enquanto voltava para casa depois de um churrasco em família. Eu estava com a minha futura esposa. Estávamos no Uber, eu tinha bebido um pouco e, certamente, estava emocionada. O motivo? Eu tinha acabado de dar a notícia à minha família de que eu e minha companheira iríamos nos casar. A reação foi unânime. E mamãe, rindo, disse:
— Filha, mas vocês já estão casadas!
E riu. A graça disso tudo é que eles respeitam o nosso relacionamento, o nosso amor, independentemente das minhas escolhas. E isso é ouro. Para mim, que sou gay, é muito importante ter uma família que me aceite. E podem acreditar: o peso disso é ainda maior. Quem dera todas as gays deste planeta tivessem uma família como a minha. Que sorte a minha! Passei anos com muitas questões para curar e entender, e foi muito difícil. Foi válido, sim. Com certeza. Precisei passar pelo vale da sombra e da morte. E vou dizer uma coisa: hoje penso que não há dinheiro que pague essa sensação, essa felicidade. Estar próxima da minha família nunca fez tanto sentido assim.
Enfim, só sei que foi ótimo. Estamos combinando os próximos passos, a lista de convidados, os preparativos e tudo mais. E estão todos envolvidos. Minha companheira também está muito feliz. Ela tem uma família maravilhosa e, graças a Deus, dei sorte com a minha futura sogra. E certamente a Amanda de anos atrás abraçaria aquele lindo vaso e o levaria consigo, sem sombra de dúvidas. E digo mais: eu ainda o replantaria, para florescer o meu jardim.









