Durante uma dessas arrumações que começam sem compromisso e terminam em viagens no túnel do tempo, me deparei com uma embalagem de veludo azul-marinho.
Abri a embalagem e ele estava ali, imóvel como um tapete, pronto para receber personagens importantes. O clássico tabuleiro de xadrez do papai.
Feito de madeira nobre marchetada, um belo trabalho constituído de pequenos pedaços de madeira fina encaixados, que criavam os quadrados claros e escuros, formando um desenho plano, elegante e durável.
Ao lado havia um “saquinho” também de veludo azul-marinho com as peças de madeira esculpida, do desafiante jogo.
Fiquei um bom tempo olhando para aquele tabuleiro silencioso. Não havia relógio marcando o tempo nem adversário. Mas era como se a partida continuasse.
O xadrez é um exercício mental poderoso, pois estimula a neuroplasticidade, além de desenvolver o foco, o planejamento e o raciocínio lógico.
Papai, ao jogar xadrez, nunca jogava apenas xadrez. Ao mesmo tempo que movia as peças pelo tabuleiro, ensinava estratégia, paciência e respeito ao adversário, dizendo que “na vida, nem sempre a jogada ideal é a mais rápida, e que uma peça não quer dizer perder a partida”.
Entendi que certos objetos não envelhecem; apenas retêm histórias. O tabuleiro de xadrez de papai já não era apenas madeira e peças esculpidas. Representava uma imagem, um retrato da nossa convivência, um mapa de afetos e cuidado desenhado em sessenta e quatro casas.
Há objetos que o sr. tempo desgasta, porém outros transforma em memória. O tabuleiro de xadrez de papai é um desses.








