No intervalo vespertino deixo o escritório para enganar a fome na padaria da praça. Peço pão na chapa e pingado, me acomodo à mesa, na calçada, e observo o movimento.
Precisamente às 15 horas, ele aparece com o livro preso à axila. Caminha lentamente, apoiado na bengala com marcas do passado, até se acomodar no banco ao lado do coreto. Ajeita o chapéu, apruma os óculos, pigarreia duas ou três vezes.
Dizem que, no início, ele tagarelava aos pombos. Talvez não percebesse que os columbiformes preferiam bicar resíduos de alimentos no chão a ter que ouvi-lo.
Por um bom tempo toda a cidade o considerou destrambelhado. Algumas pessoas suspeitavam que, a qualquer momento, ele pudesse oferecer algum tipo de perigo. Mas todas as suspeitas eram infundadas. Durante muito tempo, os pais incutiam medo nos filhos, para que não se aproximassem do “velho doido”. Mas, como toda invencionice tem prazo de validade, e curiosidade de criança é um bicho indomável, o enredo se desfez.
Anos atrás, o filho mais jovem do prefeito resolveu importunar o “velho doido”. Tentou de todas as maneiras enraivecer o pobre velho. Mas não adiantou. Em vez disso, acabou pacificado pelas histórias do nonagenário. Desde então, o velho ganhou popularidade sadia.
As histórias que ele contava eram cativantes. Lembro-me de que, ainda menino, eu me escondia atrás da quaresmeira que é vizinha do coreto, somente para ouvi-lo. Ouvi inúmeras histórias, e elas não se repetiam.
Daquele livro mágico nasciam — e nascem — reinos, galáxias, monstros, florestas e qualquer outra manifestação da imaginação. Naquele livro há passados e futuros inimagináveis. Confesso que, de vez em quando, deixo o café para ouvi-lo, como neste instante.
Atravesso a rua e me aproximo da plateia: crianças e adultos sentados na grama. O contador de histórias me reconhece. Cumprimento-o com um aceno. Ele dá uma piscadela e encosta o indicador no nariz, pedindo-me para manter o segredo. Meneio a cabeça, assentindo.
Depois de pigarrear mais uma vez, ele abre o livro e, elaborando gestos e expressões faciais para cada momento da história, começa a contar. Sua voz, embora rouca e um pouco enfraquecida, tempera com sabedoria cada palavra. Crianças e adultos viajam nas histórias.
Ao fim da narração, recebe aplausos e outras manifestações de carinho. E vai embora. Dentro de mim, o menino continua maravilhado. Dentro de mim, reina o segredo inviolável: ele é analfabeto e conta histórias guardadas no coração.









