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O que acontece quando conversamos com uma inteligência artificial?

Você digita uma pergunta, aperta “enviar” e, em poucos segundos, recebe uma resposta educada, organizada e muitas vezes surpreendentemente certeira. Parece uma conversa. Mas o que, de fato, acontece do outro lado da tela? E, talvez a pergunta mais interessante: o que acontece do lado de cá, com a gente?

Comecemos pela máquina. Ferramentas como ChatGPT, Gemini ou Claude são chamadas de modelos de linguagem. Elas foram treinadas com uma quantidade gigantesca de textos e aprenderam, por meio de cálculos estatísticos, quais palavras costumam aparecer depois de outras em cada contexto. Quando respondem, constroem o texto pedaço por pedaço, escolhendo a continuação mais adequada para aquilo que perguntamos. Depois desse treino inicial, passam ainda por ajustes para soar prestativas, gentis e colaborativas. Por isso conversam tão bem. Não há alguém lá dentro pensando “que boa pergunta”. Há um sistema extremamente sofisticado de padrões de linguagem.

Agora, o lado de cá. Em 1966, o pesquisador Joseph Weizenbaum, do MIT, criou o ELIZA, um programa simples que imitava um terapeuta devolvendo ao usuário suas próprias frases em forma de pergunta. Weizenbaum se espantou ao perceber que as pessoas se envolviam emocionalmente com o programa; sua própria secretária chegou a pedir que ele saísse da sala para que ela pudesse “conversar” a sós com a máquina. O fenômeno ganhou nome: efeito ELIZA, a tendência humana de atribuir compreensão e sentimentos a um sistema que apenas manipula palavras.

Décadas depois, os pesquisadores Byron Reeves e Clifford Nass, da Universidade Stanford, mostraram em uma série de experimentos que tratamos computadores como atores sociais. Somos educados com eles, ficamos lisonjeados com seus elogios e aplicamos a eles as mesmas regras de convivência que usamos com pessoas, mesmo sabendo, racionalmente, que são máquinas.

Ou seja: quando conversamos com uma IA, não é só a máquina que processa linguagem. Nós também reagimos, criamos vínculos, confiamos, às vezes mais do que deveríamos. É esse território que um campo científico inteiro investiga: a Interação Humano-Robô e, de forma mais ampla, a interação entre pessoas e sistemas inteligentes. Pesquisadores do mundo todo estudam como confiamos nessas tecnologias, como elas influenciam nossas decisões e o que nossa forma de falar revela sobre nós.

Por trás de muitas dessas investigações está uma premissa simples e poderosa: a forma como falamos diz muito sobre quem somos, como pensamos e como nos sentimos. A linguagem não serve apenas para pedir coisas. Ela é um retrato. É por isso que pesquisadores já analisam, por exemplo, como as palavras que escrevemos em ambientes virtuais revelam habilidades de comunicação e colaboração, ou como mudanças sutis no ritmo e na entonação da fala podem sinalizar alterações emocionais e cognitivas.

E aqui está a perspectiva que eu gostaria de deixar com você, leitor. Toda vez que conversamos com uma IA, deixamos ali um pedaço desse retrato: o jeito de perguntar, as dúvidas que repetimos, o tom que usamos, aquilo que confessamos de madrugada. As máquinas estão ficando cada vez melhores em ler a linguagem humana. A questão é: nós estamos ficando melhores em ler a linguagem delas?

Vale lembrar algumas coisas. Uma resposta fluente não é, necessariamente, uma resposta correta; modelos de linguagem podem errar com toda a segurança do mundo. Estudos também mostram que esses sistemas tendem a concordar com o usuário, o que é confortável, mas nem sempre é o que precisamos ouvir. E aquilo que escrevemos em uma conversa com a IA são dados, que merecem o mesmo cuidado que temos com qualquer informação pessoal.

Paulo Freire nos ensinou que o diálogo verdadeiro acontece entre sujeitos que se reconhecem e se transformam mutuamente. Com a IA, a conversa existe, e pode ser muito útil para estudar, trabalhar e criar. Mas a responsabilidade pelo sentido do que é dito continua sendo nossa.

Na próxima vez que abrir um chat, experimente fazer uma pergunta a si mesmo antes de fazer uma à máquina: quem está conduzindo esta conversa? A inteligência artificial pode ser uma ótima interlocutora. Pensar, porém, continua sendo uma tarefa humana.

Profª Ma. Ana Paula Alves Bleck Duque

Professora e pesquisadora de Learning
Analítics Comunicacional na Fatec
Pindamonhangaba.

Fatec Pinda

Fatec Pinda
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A FATEC Pindamonhangaba foi criada em 2006, iniciando suas atividades com o curso de Tecnologia em Metalurgia. Ao longo dos anos, ampliou sua oferta com cursos voltados às áreas industriais e de gestão, como Manutenção Industrial, Soldagem, Projetos Mecânicos e Gestão de Negócios e Inovação. A instituição se destaca pela formação prática, baseada em projetos reais e laboratórios especializados, preparando tecnólogos para atuar de forma inovadora no mercado industrial e tecnológico.
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