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O caipira e o urbanita

O urbanita viajava em férias com a família. Tratava-se de uma viagem aventureira, cruzando estradas esburacadas e poeirentas. O destino seria o topo da montanha, onde acampariam para observar estrelas.
Em certo trecho da estrada rural, o veículo empacou qual burro velho. O urbanita levantou o capô e tentou identificar o defeito. Não conseguiu. Tentou acionar o seguro, mas não havia sinal de telefonia.
O sol não se comiserava. A estrada morta se encompridava para o nada. Desanimado, pediu à esposa e ao filho que esperassem dentro do veículo, com o ar ligado. Ele ficaria atento à estrada, esperando a sorte. Com o passar do tempo, o cansaço começou a derrotar a esperança e, por isso, não percebeu o nativo surgir na mataria, montado num pangaré.


O cavaleiro queimado de sol, descalço, calça e camisa remendadas, cigarro de palha no canto da boca, apeou e disse estendendo a mão:
— Tarde. Meu nome é Chico Choco. Tá careceno ajuda, dotô?
O urbanita sentiu fedor de fumo. Notou os dedos sujos e retorcidos do cavaleiro. Sentiu nojo e não estendeu a mão.
— Sou Iugoslavo III. Conhece um bom mecânico?
— Conheço sim. Meu mano Zé Pórva é o mió que tem.
— Pode chamá-lo, por favor?
— Posso não. Mora muito longe. Ele vai vim dispois de aminhã.
— Tem outro?
— Bão, bão, bão, não tem não sinhô.
Chico Choco circundou o veículo, tocou aqui e ali, e mexeu nuns fiozinhos. Percebendo o desânimo de Iugoslavo III, ofereceu:
— O dotô e sua famía pode isperá lá em casa.
A esposa e o filho desceram do carro. O menino perguntou ao pai:
— Ele morde?
— Morde não, filho. Essa caipirada só é feia, fede e não tem inteligência.
Chico Choco, fingindo não ter ouvido, ajudou a mulher e o menino a subirem no pangaré e o puxou pelas rédeas. Ele e o urbanita caminharam até chegarem à casa de pau a pique.
— Muié. Eu trusse visita. O dotô, a muié dele e o fio dele vai isperá o Zé Pórva chegá. Dá preles cafezinho co bolo de fubá. Vô dá uma oiada na arapuca. Já vorto.
Minutos depois, Chico Choco voltou esbaforido.
— Muié, se num vai creditá. Peguei o passarinho feioso que vale um montão de dinhero. Nóis vai ficá rico.
O urbanita arregalou os olhos.
— Passarinho feioso? Que vale muito dinheiro? Podemos vê-lo?
— Craro.
Foram até a arapuca.
— E lasquera. Isqueci de trazê gaiola. Vô lá buscá e já vorto. Se oceis alevantá a arapuca o bicho foge. Num alevanta não, tá?
Chico Choco foi e não foi. Ficou espiando de longe até a curiosidade se manifestar.
— Vamos dar só uma espiadinha? O caipira nem vai saber.
Levantaram a arapuca e, em vez de passarinho, encontraram um espelho. A mulher pegou o objeto e ficou se admirando. Foi nesse instante que Chico Choco apareceu.
— Óia só. Oceis acharo o passarinho feio.
Iugoslavo III ficou muito, mas muito zangado.
— Oceis da cidade grande acha que nóis é bicho, que nóis morde, que nóis é burro. Burro é oceis que cridita em passarinho feio. Chispa daqui, cambada de inguinorante.
— O senhor quer que a gente vá a pé? – Perguntou a mulher.
— Não. O caipira aqui consertô o carro. Era só um fiozinho sorto.

Maurício Cavalheiro ocupa a cadeira nº 30 da APL – Academia Pindamonhangabense de Letra

Proseando - Maurício Cavalheiro

Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro
Membro da Academia Pindamonhangabense de Letras, da UBT União Brasileira de Trovadores e da ABRASSO Academia Brasileira de Sonetistas. Finalista do Prêmio Barco a Vapor – 2024 e do 1º Prêmio Bem-te-vi de Literatura para a Infância – 2025. Possui prêmios literários no Brasil e no exterior, e livros publicados nos gêneros poesia, infantil, romance, teatro, contos e cordel.
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