Eu fui votar.
E, enquanto esperava minha vez, comecei a reparar em uma coisa que talvez passe despercebida no meio da correria da eleição: tinha mulher para todo lado.
Mulheres votando. Mulheres acompanhando marido, filho, mãe. Mulheres trabalhando como mesárias. Mulheres chegando, conferindo documento, assinando, entrando na cabine, apertando a urna e saindo com aquela sensação de dever cumprido.
Em outras sessões, por onde passei acompanhando familiares, tive a mesma impressão: mais mulheres do que homens.
E aí fui olhar os números da eleição.
No Congresso, a presença feminina cresceu. Teremos 12 mulheres eleitas para o Senado, nas 54 vagas disputadas. Na Câmara, serão 109 deputadas federais, contra 91 eleitas em 2022.
É avanço. E é um avanço importante.
Mas aí vem a parte que me deixou pensando: a conta não fecha.
Porque nós, mulheres, estamos lá. Votando. Trabalhando na eleição. Participando. Escolhendo. Opinando. Acompanhando.
Só que, quando a porta muda de lado e a gente olha para dentro de onde as decisões são tomadas, de repente somos bem menos numerosas.
É curioso.
A mulher aparece em peso na fila da votação, mas ainda aparece em número bem menor na fila das cadeiras do Congresso.
E não estou dizendo que toda mulher precisa votar em mulher. Nem que mulher, só por ser mulher, merece voto.
Pelo amor de Deus! Não é sobre isso.
Tem mulher excelente. Tem mulher péssima. Tem mulher que a gente admira. E tem mulher que a gente olha e pensa: “Minha filha, talvez seja melhor você repensar esse projeto.”
Igualzinho aos homens.
A questão não é votar em alguém porque usa batom. É bem outra.
É entender por que a presença feminina é tão evidente na base da democracia e ainda tão tímida no topo dela.
Porque, olhando para aquela fila de eleitoras, para aquelas mesárias, para as mulheres que estavam ali cumprindo seu papel, eu fiquei com a impressão de que nós já ocupamos esse espaço faz tempo.
Talvez o que esteja faltando seja ocupar, na mesma proporção, o lugar onde as decisões são tomadas.
E isso vale para a política, mas também para a vida.
A mulher de hoje trabalha, sustenta, empreende, estuda, cuida, decide, lidera, recomeça. Depois dos 40, então, nem se fala. A essa altura, a gente já descobriu que pode trocar de profissão, de cabelo, de cidade, de plano e até de opinião — tudo sem precisar apresentar justificativa.
Mas ainda existe uma diferença entre estar presente e estar no comando.
Essa é a reflexão que essa eleição deixou para mim.
Não precisamos de uma política cor-de-rosa.
Não precisamos colocar mulheres em cadeiras só para fazer bonito.
Precisamos de mulheres preparadas, competentes e dispostas a ocupar esses espaços.
E precisamos também de eleitoras que entendam que participar da política não termina quando a gente sai da cabine de votação.
Porque, se eu vi tantas mulheres no domingo, exercendo seu direito, trabalhando e fazendo a democracia acontecer, uma coisa eu tenho certeza:
mulher não está faltando na política brasileira.
Mas, sem dúvida, está faltando mulher onde a política é decidida.
E aí, minha amiga…
a conta realmente não fecha.









