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Lições do “Grande sertão”

Faz 70 anos que o jagunço Riobaldo, protagonista do célebre romance Grande sertão: veredas, nos alerta de que “viver é muito perigoso” e, justamente por isso, diz o parceiro de Diadorim, o que a vida “quer da gente é coragem”. A obra de Guimarães Rosa, lançada em 1956, ressoa no tempo com a força e a beleza de um clássico que vive renovando suas lições a cada leitura. Hoje, valho-me das palavras de Rosa para refletir sobre o necessário empoderamento de nossos alunos.

Logo no início da narrativa, descrevendo a natural inclinação para o mal que marca a vilania de um sujeito, Riobaldo explica: “passarinho que se debruça – o voo já está pronto”. Deixando de lado a maldade ali retratada, é possível tornar auspicioso esse ensinamento “passarinhesco”: quando a gente busca determinado objetivo, o ato de buscar engendra a conquista, ou seja, é o passo decisivo para o que se pretende alcançar – o voo pronto para as lonjuras.

É o que sempre digo aos alunos, especialmente àqueles que se preparam para provas e concursos, pois, de fato, sem confiança e dedicação ninguém alça voo em direção alguma. Como bem escreveu Simone Weil, “o desejo de luz produz luz”; para que essa luz permaneça, vale nosso empenho!

Sim, a tarefa de motivar alguém e, mais do que isso, de entusiasmar alguém é desafiadora. Nesse processo, precisamos também estar motivados, além de convictos das estratégias indicadas. Mesmo quando o horizonte não é estimulante, ou principalmente quando o horizonte não é estimulante. Se for esse o contexto, Riobaldo vem nos acudir: “Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa, ainda encontra”. Quiçá uma história arrebatadora como a de Riobaldo e seu bando. Na melhor das hipóteses, a história da sua vida!

Reconhecer, aliás, que o horizonte pode ser desestimulante também se faz necessário, afinal, a vida tem, além de muitas oportunidades, seus perigos e enganos. Por falar nisso, tudo vale como aprendizado, portanto, nada pode nos escapar, até porque “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Ora, a travessia é uma escola da vida inteira!

Numa época em que muitos falam sobre situações e sensações que nos “atravessam”, é preciso entender que nós é que vivemos atravessando: atravessar é próprio do viver, todos seguimos assim, fazendo-nos na travessia de tempos e lugares, acertando, errando, aprendendo e crescendo a cada passo.

Se, por vezes, parece estarmos perdidos num deserto, ou andando em círculos, ou vagando no sertão, Riobaldo nos socorre de novo: “A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro…”. Metaforizemos o sertão da maneira como quisermos, transpondo-o para nossa vida e nossas pelejas!

Tudo isso para dizer que o desafio de educar envolve motivar nossos alunos para o combate, fornecendo-lhes, é claro, as indispensáveis ferramentas do conhecimento, mas também os estimulando sempre a jamais perderem a chama acesa no peito desde os primeiros passos. É preciso confiar na busca e no caminho que nos separam – ou, melhor dizendo, nos aproximam – de nossos sonhos!

Nesse sentido, importam a vida, a arte, a cidade, o país, a família, os amigos, a escola… e o professor! Instrutor, mediador, facilitador, amigo, paizão – independentemente do termo, “mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”. Coragem, queridos alunos! O ato de aprender, por si só, já é empoderador.

Conversas sobre Educação - Ricardo Estevão

Ricardo Estevão
Ricardo Estevão
Trabalha há 17 anos como professor de Redação no Sistema Anglo de Ensino, é formado em Jornalismo e Letras e possui especialização em “Língua Portuguesa: gramática e uso”, curso da Unitau (Universidade de Taubaté) em que, atualmente, é professor de duas disciplinas: Aspectos Morfossintáticos e Estilísticos Constituintes do Gênero Literário e Produção de Textos. Membro titular da Academia Pindamonhangabense de Letras, possui dez livros publicados (ficção, poesia e ensaio). Um deles, seu romance juvenil “Bob Kurt”, foi selecionado pelo PNLD Literário 2021 (Programa Nacional do Livro Didático) e distribuído para escolas no Brasil inteiro. É também colunista do centenário jornal Tribuna do Norte, de Pindamonhangaba. Como professor, defende uma Educação centrada no afeto de ensinar e na alegria de aprender. Desenvolve há 12 anos o projeto Liga da Leitura que estimula a convivência com livros e inspira diálogos sobre experiências leitoras a partir do protagonismo dos estudantes.
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