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Jornal Tribuna do Norte

Duelo de bigodes

Numa cidadezinha do século XIX, era tradição realizar anualmente um concurso para eleger o bigode mais extenso, mais volumoso e mais bem cuidado. Como prêmio, o vencedor teria um pedido realizado, fosse ele qual fosse.

A fama do evento se alastrou rapidamente, chegando a terras estrangeiras. Com isso, a cada ano a cidadezinha recebia bigodões indianos, portugueses, mexicanos e de outras plagas.

Mesmo com a disputa cada vez mais acirrada, ninguém conseguia vencer os nativos Caubi Godão e Lupi Açava, que alternavam o título.

O evento era tão contagiante que até as crianças pintavam o buço com carvão.

Na última edição, a cidadezinha quase não conseguiu abrigar tantos bigodes, quero dizer, tanta gente.

O júri, composto pelo padre, pelo prefeito e pelo delegado, instalou-se na praça. A avaliação dos concorrentes era manuscrita com penas de ganso em papéis rudimentares.

— O bigode do mexicano tem 60 cm de ponta a ponta — diagnosticava o padre após a medição. — O volume está falsificado, pois está untado com gordura de porco.

O prefeito anotava, enquanto o delegado examinava o próximo concorrente.

— Agora as medidas do português: o bigode desenrolado chega a medir 68 cm; e, embora possua boa espessura, não supera o do mexicano.

E assim a avaliação de cada concorrente era anotada. Na vez de Caubi Godão e Lupi Açava, a medida dos bigodes foi idêntica: 86 cm, nem mais, nem menos. O volume também apresentou a mesma circunferência. Como era impossível dizer qual bigode era o mais bonito, o júri decidiu pelo empate.

Mas, de repente, um concorrente de última hora apareceu. O homem ruivo, com o bigode quase tocando o chão, chegou montado num cavalo baio. O padre avaliou-lhe os quesitos e, com a anuência dos demais jurados, declarou o ruivo vencedor.

— Parabéns! — saudou o delegado. — Faça o seu pedido e será atendido.

O homem olhou vagarosamente para cada pessoa presente e declarou:

— Quero que todos os bigodes sejam banidos desta cidade.

Houve resistência. Mas a regra do concurso não podia ser quebrada. Em plena praça pública, navalhas foram usadas na remoção da pelagem facial. Mulheres que abominavam bigodes, barbas e cavanhaques aplaudiram.

Depois disso, o campeão montou em seu cavalo, saudou o povo e partiu. Quilômetros adiante, apeou, fez uma profunda cova na terra e enterrou o seu bigode… postiço.

Proseando - Maurício Cavalheiro

Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro
Membro da Academia Pindamonhangabense de Letras, da UBT União Brasileira de Trovadores e da ABRASSO Academia Brasileira de Sonetistas. Finalista do Prêmio Barco a Vapor – 2024 e do 1º Prêmio Bem-te-vi de Literatura para a Infância – 2025. Possui prêmios literários no Brasil e no exterior, e livros publicados nos gêneros poesia, infantil, romance, teatro, contos e cordel.
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