Maurício Cavalheiro
Em uma tarde chuvosa, para combater o tédio, Lupicínio se sentou à mesa da cozinha e abriu um álbum de fotografias. Antes de folheá-lo, fechou os olhos para sentir o cheiro de terra molhada que escorregava pelas frestas da janela e por debaixo da porta. Aquela sensação multiplicava a saudade que sentia da avó.
No sítio onde a mãe do seu pai morava, nos dias de céu choroso, ela preparava bolinhos de chuva e café no fogão de lenha e contava histórias. Lupicínio suspirou profundamente e começou a folhear o álbum: tia Gripina, com lenço ao nariz; tio Bolacha, esparramado no sofá; tio Bigodinho Ralo, se admirando no espelho; tia Cocota, com a minissaia da filha… De repente, parou e começou a gargalhar de uma foto esquisita: um homem mais fino que bambu verde com trajes coloridos.
A mãe apareceu para entender o motivo de tanta euforia. Ele apontou para a foto e disse: “Ô gente esquisita!” Imediatamente, ela torceu levemente as orelhas dele e também começou a rir.
— Você se lembra do tio Ataulfo?
— Ataulfo ou Minhoquinha? Como iria me esquecer desse figurinha?!
Tio Ataulfo trabalhou em um circo no tempo em que leões, elefantes e macaquinhos não eram proibidos de atuar. Era ele quem alimentava a bicharada e limpava o abrigo de cada um deles.
O sonho do tio era ser importante no circo. Estava cansado de viver no anonimato, cuidando de tarefas que jamais lhe dariam fama.
Certa vez, o palhaço teve um descontrole intestinal e não pôde se apresentar. Circo sem palhaço não tem graça. Enquanto o dono do circo tentava encontrar uma solução, tio Ataulfo entrou no camarim e se maquiou. No momento em que o dono do circo iria comunicar que o palhaço Chulé não se apresentaria, tio Ataulfo apareceu no palco e a gargalhada começou.
Era tão magro, mas tão magro, a calça não parava no lugar. Ele a suspendia, ela escorregava.
— Cadê o cinto? — perguntou-lhe o dono do circo.
— Cinto? Eu sinto muito. Ele não segura a calça.
A plateia ria, gargalhava. Tio Ataulfo nem precisava dizer nada, pois só a imagem dele já era hilária. Alguém, que estava chorando de tanto rir, sugeriu que ele amarrasse uma corda na cintura. Tio Ataulfo disse que ia buscar. Mas a calça arriou, ele se enroscou nela e caiu. Envergonhado, ele rastejou feito um anelídeo e desapareceu atrás das cortinas. Nesse momento a plateia começou a gritar:
— Minhoquinha! Minhoquinha! Queremos o palhaço Minhoquinha!
Tio Ataulfo não ia voltar ao palco.
Mas o dono do circo foi buscá-lo e lhe fez uma ótima proposta: dividir o palco com o palhaço Chulé. E desde aquele dia, ele passou a ser famoso.
Agora está aposentado. Engordou.
Pessoalmente perdeu a graça. Mas a fotografia dele vestido de palhaço ainda arranca boas risadas.









