Eu não sei o que é o tempo. Mas ouvi dizer que há sete meses e alguns dias estou aqui, e não estou sozinho. Comigo há outro passageiro, igualzinho a mim. Ele é acanhado, não gosta de manifestar seus pensamentos.
Aqui é um pouco apertado. Às vezes eu me enrosco nele e, outras vezes, ele se enrosca em mim. Isso acontecia com mais frequência quando havia tremores nesta parede ovular, tremores precedidos por sons graves, altíssimos, aterrorizantes, provocados por um monstro.
Não tenho lembranças de outras viagens. Eu só conheço este lugar cheio de líquido que, acredito, serve para nos proteger dos abalos. Apesar de todas essas turbulências, confesso que estou curioso para saber o que há do outro lado, no mundo para aonde estamos indo.
Aqui é um lugar maravilhoso. Ruins eram as ameaças do monstro exigindo a nossa expulsão. Ouvi dizer que os abalos eram socos e pontapés e que causavam hematomas e sangramentos em nossa nave. Não sei o que são socos e pontapés, muito menos hematomas e sangramentos.
Entre mim e meu companheiro de viagem, eu sou o mais atento. Por isso, sei de coisas que ele ignora. Por exemplo: lá fora tem um ser que emite sons suaves e amorosos quando conversa conosco. Esse ser frequentemente acaricia a parede da espaçonave e, pelo que ouvi dizer, esse ser é chamado de Mamãe. Quando ela conversa conosco e nos chama de filhinhos, eu me sinto seguro.
Ainda me lembro da última vez que a nave foi muito chacoalhada. Parecia que havíamos atravessado uma nuvem de asteroides e a nave se chocado com um planeta, ou algo parecido. Ouvi gritos, gemidos e choros. Ouvi sirene, freada brusca, botinas marchando, estampidos.
Levaram o monstro. Soube disso tudo porque, assim que a turbulência terminou, um ser chamado Vovó conversou com Mamãe; e, a partir daquele momento, nossa viagem foi tranquila até o fim da jornada.
Meu companheiro de viagem não queria desembarcar. Tinha medo do que poderia existir do outro lado. Eu não tive medo.
Introduziram agulha em nossa nave, e a nossa nave adormeceu. Eu ouvi: bisturi, pinça, tesoura, afastador, aspirador, espátula, válvula… não exatamente nessa ordem. E, de repente, uma luz intensa invadiu o interior da nave. Um ser de máscara me puxou e cortou o cordão que me ligava à nave. Tive medo daquele ser estranho que me segurava pelas pernas. Não gostei de ele ter me batido nas nádegas. Eu chorei. Em seguida, ele fez o mesmo com o meu companheiro de viagem.
Outro ser nos aconchegou no colo e, em seguida, nos colocou ao lado do ser que estava deitado. Ouvi dizer: “Parabéns, mamãe. Seus gêmeos nasceram perfeitos e saudáveis”.
O tempo passou… Quando me tornei adulto, minha mãe me contou que teve uma gravidez complicada, pois meu pai não queria que meu irmão e eu nascêssemos. Não fosse por Mamãe, hoje eu não seria um cirurgião cardiovascular. Não fosse por ela, eu não teria realizado com êxito a cirurgia do homem do quarto 16: meu pai.









