Depois que assinou o divórcio, resolveu morar noutra cidade. Para comprar a nova casa, investiu seus últimos minguados. O imóvel desbotado não era maior do que dois cubículos.
Antes de se mudar, precisou comprar cama, fogão, mesa e geladeira, em longuíssimas parcelas. A casa não possuía espaço suficiente para outros móveis.
Desde que se mudara, a vizinha do outro lado da rua passou a espichar os olhos para ele. Ela era uma senhora excêntrica, de idade duvidosa. Dizia-se cinquentona, mas as rugas excessivas desmentiam-na. Coerente seria se dissesse: quase oitenta.
A mulher, que usava uma espécie de turbante, começou a passar tardes inteiras na varanda. Sentada numa cadeira, fingia tricotar o tempo, apenas para fiscalizar o vizinho.
Na primeira semana, ela preparou uma torta trufada de chocolate, atravessou a rua e apertou a campainha. “Dim-dom!”. Ele apareceu.
— Seja bem-vindo ao nosso bairro.
— Muito obrigado. A senhora não quer entrar um pouquinho?
O convite foi apenas um gesto cordial; ele tinha certeza de que ela recusaria. Mas ela entrou.
Sentaram-se à mesa e, enquanto ele provava a torta, ela o bombardeou com perguntas. Ela ficou sabendo que ele era um quarentão sem filhos, que trabalhava numa empresa têxtil e que a esposa o trocara por um rapazola do ramo da linguiça.
Ela contou que praticava quiromancia e, antes de ir embora, pediu para ler a mão dele.
— A senhora é cigana mesmo?
— Eu? Ah, claro que sim. Sou do clã… Faria. Sou conhecida por Paty. Cigana Paty Faria.
Para se livrar da mulher, ele estendeu a mão e ela leu.
— Vejo que a solidão o machuca. Mas não ficará sozinho por muito tempo. O grande amor da sua vida é uma mulher de blusinha verde e minissaia preta. Fique atento.
Ela foi embora e ele ficou pensativo. Desde a separação, ele só saía de casa para trabalhar. Precisava curtir a vida. Ligou para um amigo e combinou de saírem no próximo sábado.
Foram ao restaurante. Na mesa ao lado, a loira de blusinha verde e minissaia preta não tirava os olhos dele. Foi amor à primeira vista. Saíram de mãos dadas do restaurante.
Ele contou a ela sobre a leitura da mão e a convidou para conhecer a senhorinha.
— Ela mora naquela casa.
— Naquela amarelinha?
— Isso. Naquela.
A moça riu discretamente e o acompanhou. Ele tocou a campainha. A senhorinha apareceu e perguntou com raiva nos olhos:
— O que você está fazendo de mãos dadas com a minha neta? E você tinha que usar essas roupas justo hoje?
A moça abraçou a velha e ele percebeu que ambas estavam usando blusinha verde e minissaia preta.









