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Às vezes eu me pergunto se Deus realmente fez o homem do barro ou se essa é uma das metáforas mais bonitas já escritas

Não faço essa pergunta para questionar a fé de ninguém. Pelo contrário. Faço porque acredito que as histórias mais antigas continuam vivas justamente por permitirem diferentes formas de enxergá-las. O barro nunca me pareceu apenas barro.

Ele é terra. É origem. É aquilo que pode ser moldado, transformado, refeito. Talvez exista aí um lembrete de que ninguém nasce pronto. A vida inteira estamos sendo modelados pelas escolhas que fazemos, pelas dores que enfrentamos e pelos amores que encontramos pelo caminho.

Depois vem outra parte da história que sempre me chamou atenção: o sopro da vida. O barro estava ali, mas só ganhou vida quando recebeu o fôlego divino. E eu gosto de pensar que esse sopro continua existindo. Não necessariamente como um acontecimento do passado, mas como algo que acontece todos os dias, quando encontramos forças para recomeçar, quando escolhemos perdoar, quando insistimos em acreditar, mesmo depois de tantas decepções.

Acredito muito na força da fé. E, antes que alguém pense que estou falando de religião, não estou. Fui batizada na Igreja Católica, já frequentei outras religiões, aprendi muito com diferentes caminhos espirituais. Amo Jesus. Amo Oxalá. Amo tudo aquilo que representa amor, caridade, compaixão e esperança. Nunca consegui acreditar que Deus coubesse dentro de uma única porta ou de um único nome.

Talvez Deus seja maior do que todas as nossas definições. Quando falo de fé, falo daquela certeza silenciosa de que algumas coisas existem, mesmo quando não podemos vê-las. Ninguém enxerga o oxigênio, mas respiramos. Ninguém vê o sinal do Wi-Fi, mas confiamos que ele está ali quando nosso celular se conecta. A fé, para mim, se parece um pouco com isso. Não é enxergar. É conectar.

E talvez seja justamente essa conexão que nos faça continuar caminhando quando tudo parece dar errado. Passei — e ainda passo — por períodos de provações. Houve dias em que tudo parecia distante, improvável e até impossível. Mesmo assim, sempre que fiz um pedido com o coração inteiro, acreditando de verdade, a vida encontrou um jeito de responder. Nem sempre da forma exata que eu imaginava. Nem sempre no tempo que eu queria. Mas respondeu.

Existe outra coisa curiosa que acontece comigo. Quase tudo o que escrevo acaba encontrando um jeito de existir na vida real. Às vezes não da mesma maneira, nem com os mesmos detalhes, mas a essência está lá. Talvez seja coincidência. Talvez seja porque, quando escrevemos nossos sonhos, começamos a enxergar oportunidades que antes passavam despercebidas. Ou talvez exista algo maior acontecendo, algo que eu ainda não sei explicar.

E, sinceramente, acho bonito não saber explicar tudo. Vivemos numa época em que parece obrigatório ter respostas para qualquer pergunta. Eu prefiro continuar cultivando algumas dúvidas. Porque são elas que mantêm viva a curiosidade.

E talvez a fé seja exatamente isso: não a ausência de perguntas, mas a coragem de continuar acreditando, mesmo sem possuir todas as respostas. Se Deus nos fez do barro, talvez tenha nos deixado também as próprias mãos para continuar a obra. Todos os dias. Um pouco de cada vez.

Fragmentos - Amanda Emídio

Amanda Emídio
Amanda Emídio
É bacharel em Jornalismo pela Uninter e roteirista formada pela EBAC – Escola Britânica de Artes e Tecnologia. Escritora com cinco livros publicados, transita entre ficção, drama e narrativas LGBTQIA+, sempre explorando afetos, conflitos e tudo aquilo que a gente tenta esconder — mas escreve mesmo assim.
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