Há peças de arte que parecem ter sido feitas para contar histórias e sentimentos e até memórias.
Foi essa a sensação que tive ao visitar uma exposição de máscaras de ferro que permaneceram imersas no mar da costa catarinense por um bom tempo, onde o mar foi o laboratório de criação.
As máscaras foram inspiradas nas pinturas corporais dos povos etíopes do Vale do rio Omo, onde os traços, flores e composições abstratas dos rostos de homens e mulheres e até crianças, trazem a grandeza em suas camadas.
Diante das peças era difícil pensar só no ferro forjado. Marcadas pela ação da água salgada, as peças estavam cobertas pela ação do tempo.
Acostumado a apagar rastros, o mar havia deixado seus próprios rastros: manchas, corrosões, textura, marcas de animais marinhos, que muito dessas se assemelhavam as pinturas dos povos ribeirinhos do Vale do rio Omo.
Caminhando pausadamente entre as peças; algumas pareciam assustadoras; outras silenciosas e até misteriosas. Todas, porém carregavam uma estranha beleza. Beleza esta vista nas fotos das pinturas corporais do povo já citado.
O mar não destruiu completamente as máscaras, mas também não as deixou intactas. Transformou-as semelhantemente com as pinturas inspiradoras que levou o artista a realizar sua obra.
Sai da exposição com a impressão de que não havia visto apenas peças de ferro corroídas pela ação da água salgada. Havia visto o encontro entre o homem, o tempo e o artista; de alguma maneira, o mar trouxe à superfície aquilo o que elas tinham para contar através da visão do artista.








