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Ártemis, a Lua e a minha janela

Há algumas semanas imagens da Lua começaram a aparecer na tela do meu celular e do notebook. E assim continua. Em redes sociais ou em sites de notícias, lá está ela. Mas, por algum motivo, as imagens sempre vêm com algum problema na visualização: às vezes borradas, outras vezes desbotadas, quase sem cor. Em alguns momentos, tenho a sensação de ter voltado no tempo, para a época em que os televisores ainda eram em preto e branco. “Será que estou em 1969?”.

Confiro o calendário. Não, é 2026, mesmo. Por desencargo, vou até a janela e investigo o céu estrelado. Lá está ela: prateada, romântica, majestosa. Suspiro de admiração e alívio em saber que a Lua que eu sempre conheci ainda está ali. Volto então os olhos para as telas; as imagens ainda são precárias.

E não só as imagens. Precárias, também, são as informações que as acompanham, anunciando que, muito em breve (o que quer que “muito em breve” signifique nesta nova ordem espacial), a Lua será explorada mais a fundo. Estruturalmente. Ou seja, o que o programa espacial Artemis pretende é algo bem diferente da primeira ida do homem à Lua, ao final dos anos 1960, quando o grande objetivo (levado a cabo pelo programa Apollo) era liderar a disputa científico-tecnológica contra os soviéticos. Agora, no entanto, o plano é realmente preparar o terreno com o objetivo de ir para ficar. Explorar, colonizar. Pelo jeito, estamos mais próximos de Colombo do que de Armstrong.

Olho novamente as imagens da Lua no meu celular e ela me parece ainda mais melancólica, desbotada. Objeto de um processo de exploração que, após esgotar os recursos da nossa própria casa, agora sai Universo afora em busca de outras casas e outras fontes de recursos, sob o nobre pretexto do avanço científico. Ironicamente, as mesmas instituições que atualmente condenam e punem a imigração dão o primeiro passo para nos transformar na maior espécie de refugiados.

Mas a Lua que vejo da minha janela ainda é a mesma. É a lua cantada pelos grandes trovadores. A personificação da liberdade e do amor em Cyrano de Bergerac. O mistério e o desafio à razão em The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. A promessa e o desejo irrealizado na voz de Audrey Hepburn cantando “Moon River”, em Bonequinha de Luxo. O constante estado de transformação em Circe e o instinto feminino na mítica deusa Ártemis (ora, ora!). Enfim, a Lua que vejo da minha janela não é o grande astro a ser explorado, e sim a musa que nos torna mais humanos – seja quando a contemplamos daqui da Terra, seja quando vemos nosso próprio planeta (nosso pálido ponto azul, como diria Carl Sagan) a partir da Lua. Ela nos ajuda a ter uma medida mais exata de quem somos.

E longe de mim condenar o desenvolvimento científico, fique claro… Mas, num tempo em que tantos matam e morrem em uma disputa pela hegemonia econômica e por recursos naturais, me parece que todas as nossas viagens rumo ao longínquo – seja a um país estrangeiro, seja a um astro vizinho – sempre nos levam à grande empreitada final e inevitável: de nós a nós mesmos.

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Thaís Bueno
Thaís Bueno
Tradutora, professora de inglês e doutora em línguas aplicada pela Unicamp - @bueno_t
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