
Há pessoas que passam pela cidade. Outras permanecem nela, mesmo depois de partir. Alarico Corrêa Leite pertence a essa segunda categoria. Em uma cidade onde tantas histórias se confundem com o tempo, sua trajetória merece ser lembrada. Sua história não está apenas nas lembranças de quem o conheceu, mas também nas formas que suas mãos deram à madeira, à argila, ao papel e à imaginação. Cada peça, cada desenho e cada personagem parecem guardar um pouco do homem que nunca deixou de olhar o mundo com curiosidade, sempre disposto a transformar coisas simples em algo capaz de emocionar. Esse é um legado da cidade que nenhuma passagem do tempo consegue apagar.
Filho de Antônia Rita Conceição e Manoel Corrêa Leite, agricultor, Alarico cresceu observando os animais da roça. Bois, vacas, cachorros, patos e pássaros despertavam sua curiosidade. Ainda menino, desenhava com carvão ou pedaços de tijolo. Em casa, via a mãe modelar figuras de argila e tentava reproduzi-las. Talvez ali, sem que ninguém percebesse, começasse a nascer o artista.
Adolescente, foi para São Paulo trabalhar como gari. Nas horas vagas, porém, procurava o que realmente alimentava sua alma: o desenho. Assistia a algumas aulas no Liceu de Artes e Ofícios e recolhia cartolinas e revistas encontradas no lixo para transformar em matéria-prima de seus trabalhos. A falta de recursos não impediu o talento; ao contrário, parece ter ensinado a ele a criar com aquilo que tinha à mão.
Na década de 1950, de volta a Pindamonhangaba, trabalhou como carpinteiro na Estrada de Ferro Campos do Jordão. Os colegas já reconheciam sua habilidade artística. Aos poucos, a carpintaria foi dividindo espaço com a criação de alegorias para o carnaval de Pindamonhangaba e, mais tarde, de Guaratinguetá. Vieram figuras políticas, personagens populares e tipos do folclore, como Zé Pereira e Boi Jacá.
Autodidata, Alarico não parava de experimentar. A cada trabalho, buscava novas soluções e materiais, utilizando inclusive estruturas de bambu. Na década de 1970, sua arte alcançou novos espaços ao participar do programa Cidade contra Cidade, de Silvio Santos. Ali apareceram suas criações, entre elas um busto de cerâmica de Pelé e cabeções de papelagem representando personalidades como Ronnie Von e Emerson Fittipaldi.
Mas talvez o maior legado de um artista não esteja somente nas obras que deixa. Está naquilo que consegue despertar em quem vem depois. E Alarico parece ter plantado uma verdadeira semente artística dentro da própria família.
Seu filho Adelson continuou retratando, em madeira, os bondinhos da Estrada de Ferro Campos do Jordão. Alarico Filho seguiu pintando em tela. Isaura dedicou-se à pintura de fraldas. Hildo trabalhou com argila. As netas Viviane e Estella seguiram caminhos ligados à Arte Educadora. E a memória familiar também registra Marcelo Denny, destacado nas artes, especialmente no teatro, com a peça A Barca do Inferno, que permaneceu em cartaz durante muitos anos em Pindamonhangaba.
É bonito pensar que um menino que desenhava animais da roça com carvão acabou deixando marcas tão profundas. Alarico encerrou seus trabalhos, mas não encerrou sua história.
Em Pindamonhangaba, sua história continua viva como uma obra que não terminou: passa de mão em mão, de geração em geração, lembrando que talento pode ser herdado, mas precisa ser cultivado.
E talvez seja esse o verdadeiro sentido de seu legado: transformar a arte em memória e a memória em orgulho.









