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A Mansão e o Observatório

Há anos sonho com a mesma mansão. Ela muda de tempos em tempos, mas continua sendo a mesma. Alguns cômodos se transformam, surgem corredores e pessoas desconhecidas. Ainda assim, quando estou ali, tenho a sensação de já conhecer aquele lugar. Caminho pela casa como quem conhece o caminho, embora não saiba por quê. A mansão é antiga, grande e estranhamente fantasmagórica. E existe uma sala onde nunca devo entrar.

Durante muito tempo, não sabia o que havia atrás daquela porta. Eu apenas sentia que precisava permanecer do lado de fora. Agora descobri que aquela sala é um observatório.

Não sei por que existe um observatório naquela mansão. A casa parece pertencer aos anos 70, pelos móveis e pela arquitetura. Mas o observatório transmite uma sensação diferente, como se pertencesse a outro tempo. E é justamente ali que parece estar o centro de tudo.

Existem muitas almas presas naquela casa. São pessoas que morreram de maneira violenta e permaneceram naquele lugar. Elas não estão apenas vagando pelos corredores. Estão atormentadas e são escravizadas por um espírito maligno.

Nunca vi esse espírito. Não conheço seu rosto, sua forma ou sequer sei se possui uma aparência humana. Mesmo assim, sei que ele está lá. Sua presença é percebida sem que precise aparecer.

Algumas almas conversam comigo quando passo pelos corredores. Elas me olham como se já me conhecessem. Algumas pedem ajuda; outras tentam me proteger. O mais estranho é que nem sempre sinto medo delas. Existe nelas uma tristeza profunda, como se apenas quisessem ser libertadas. E eu consigo ouvi-las. Às vezes vejo trabalhadores reformando partes da mansão. Paredes mudam, objetos aparecem e alguns cômodos ganham outra aparência.

A casa pode se transformar, mas o observatório permanece intocado. Aquela porta continua fechada.

Depois de tantos anos sonhando com a mansão, ainda não consegui atravessá-la. Já percorri corredores, conversei com mortos e descobri lugares diferentes. Mas aquela porta continua sendo uma fronteira. Penso que o espírito esteja atrás dela. Penso que as almas estejam presas por causa daquele lugar. Também imagino que exista ali uma resposta para tudo o que acontece. O que mais me assusta, porém, não são os mortos. É a sensação de que eu não sou uma visitante naquela história. Pode ser que eu faça parte dela e por isso as almas falem comigo. Talvez eu reconheça aquela presença porque já a conheça de algum lugar.

Ou tudo seja apenas uma criação da minha mente durante o sono. Mas, quando acordo, a mansão não desaparece completamente. Ela permanece na minha memória, esperando.

E quando volto a dormir, encontro novamente seus corredores, suas almas e aquela porta.

A porta do observatório continua fechada, esperando que um dia eu descubra por quê.

Fragmentos - Amanda Emídio

Amanda Emídio
Amanda Emídio
É bacharel em Jornalismo pela Uninter e roteirista formada pela EBAC – Escola Britânica de Artes e Tecnologia. Escritora com cinco livros publicados, transita entre ficção, drama e narrativas LGBTQIA+, sempre explorando afetos, conflitos e tudo aquilo que a gente tenta esconder — mas escreve mesmo assim.
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