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A CAMPONESA E O CAVALEIRO

Nuvens choramingaram durante a madrugada, despertando o perfume da terra. O sol apareceu modesto e preguiçoso, recolhendo gotículas das folhas do jardim. Outra vez, o galo desafinou a partitura da aurora.

A janela da palhoça se abriu depois do canto esganiçado. Uma camponesa de olhos ingênuos apareceu e se debruçou sobre o parapeito. Em seguida, um rouxinol pousou nos ombros dela e gorjeou a novidade.

Ela deixou a casa com os pés desnudos, envolta num vestido delicado de algodão e rendas. Sentou-se na soleira e mergulhou os olhos no horizonte.

De vez em quando, distraía-se com os cachos de borboletas pendurados no roseiral e as nuvens mutantes que provocavam a imaginação.

Nesse compasso, o tempo imorredouro ia recolhendo as horas e alterando os detalhes da primavera.

A certa altura, os olhos da camponesa começaram a duvidar da novidade, e ela pensou que, mais uma vez, seria ludibriada. Mas eis que, na linha do horizonte, apareceu uma sombra tênue em movimento. A silhueta se aproximava e, aos poucos, revelou a imagem de um cavaleiro em seu alazão.

Para multiplicar a beleza da camponesa, as borboletas deixaram o roseiral e, em forma de coroa, pousaram na cabeça dela. Sobre o telhado da palhoça, pelo menos uma centena de rouxinóis se alinhou e começou a sinfonizar canções de amor.

Enquanto o tempo reduzia a distância, o coração da camponesa materializava a esperança.

Segundos depois, o cavaleiro apeou e, oferecendo um sorriso, disse:

— Galopei dias e noites por territórios imensuráveis até chegar aqui.

A camponesa, retribuindo o sorriso, perguntou:

— E valeu a pena perder tanto tempo no dorso de um cavalo?

Ele se aproximou e sussurrou ao ouvido dela:

— Nenhum tempo é perdido quando empregado para encontrar a felicidade.

— E onde ela está? — perguntou, encabulada.

Depois de breve silêncio, o cavaleiro afirmou:

— Está neste jardim.

E, estendendo a mão à camponesa, convidou-a:

— Você vem comigo?

No momento em que ela ia responder, o despertador me acordou.

Proseando - Maurício Cavalheiro

Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro
Membro da Academia Pindamonhangabense de Letras, da UBT União Brasileira de Trovadores e da ABRASSO Academia Brasileira de Sonetistas. Finalista do Prêmio Barco a Vapor – 2024 e do 1º Prêmio Bem-te-vi de Literatura para a Infância – 2025. Possui prêmios literários no Brasil e no exterior, e livros publicados nos gêneros poesia, infantil, romance, teatro, contos e cordel.
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