Nuvens choramingaram durante a madrugada, despertando o perfume da terra. O sol apareceu modesto e preguiçoso, recolhendo gotículas das folhas do jardim. Outra vez, o galo desafinou a partitura da aurora.
A janela da palhoça se abriu depois do canto esganiçado. Uma camponesa de olhos ingênuos apareceu e se debruçou sobre o parapeito. Em seguida, um rouxinol pousou nos ombros dela e gorjeou a novidade.
Ela deixou a casa com os pés desnudos, envolta num vestido delicado de algodão e rendas. Sentou-se na soleira e mergulhou os olhos no horizonte.
De vez em quando, distraía-se com os cachos de borboletas pendurados no roseiral e as nuvens mutantes que provocavam a imaginação.
Nesse compasso, o tempo imorredouro ia recolhendo as horas e alterando os detalhes da primavera.
A certa altura, os olhos da camponesa começaram a duvidar da novidade, e ela pensou que, mais uma vez, seria ludibriada. Mas eis que, na linha do horizonte, apareceu uma sombra tênue em movimento. A silhueta se aproximava e, aos poucos, revelou a imagem de um cavaleiro em seu alazão.
Para multiplicar a beleza da camponesa, as borboletas deixaram o roseiral e, em forma de coroa, pousaram na cabeça dela. Sobre o telhado da palhoça, pelo menos uma centena de rouxinóis se alinhou e começou a sinfonizar canções de amor.
Enquanto o tempo reduzia a distância, o coração da camponesa materializava a esperança.
Segundos depois, o cavaleiro apeou e, oferecendo um sorriso, disse:
— Galopei dias e noites por territórios imensuráveis até chegar aqui.
A camponesa, retribuindo o sorriso, perguntou:
— E valeu a pena perder tanto tempo no dorso de um cavalo?
Ele se aproximou e sussurrou ao ouvido dela:
— Nenhum tempo é perdido quando empregado para encontrar a felicidade.
— E onde ela está? — perguntou, encabulada.
Depois de breve silêncio, o cavaleiro afirmou:
— Está neste jardim.
E, estendendo a mão à camponesa, convidou-a:
— Você vem comigo?
No momento em que ela ia responder, o despertador me acordou.









