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A arte do silêncio

Em uma época em que verdades e inverdades se confundem e são questionadas quase todos os dias, posso dizer de boca cheia que, se há uma verdade universal e incontestável, é a de que o silêncio vale ouro. E isso é ainda mais verdade para professores do Ensino Fundamental: não conheço um professor sequer que não o considere um dos materiais mais raros e preciosos da face da Terra, pelo simples fato de que passamos, quase todos os dias, pelo menos metade das aulas pedindo que os alunos fiquem quietos (“Pessoal, silêncio!”, “Olha a conversinha aí no fundo!”, “Galera, por favor, diminuam o volume!”, além do clássico “Shhh!”).

E ordens desse tipo podem até trazer um momento de disciplina à sala, mas, curiosamente, tenho notado nas aulas um tipo de paz muito distinta e que não requer sermão. Falo daquele momento em que o silêncio se manifesta espontaneamente. Do nada, a complexa e caótica dinâmica de sala se assenta e, por alguns minutos, nenhum aluno fala: estão atentos. Para uma professora novata como eu, o fenômeno causa até certo espanto – que não pode se prolongar, pois momentos como esse não devem ser desperdiçados, e sim aproveitados para se lançar o anzol que fisgará a atenção de todas aquelas mentes brilhantes e as trará para a matéria. Professores mais experientes fazem isso com maestria; já eu, depois de alguns dias observando o fenômeno, me contento em identificá-lo intimamente como meu momento John Cage. Explico-me.

John Cage é um músico que ficou conhecido pela faixa 4’33”, na qual nenhuma nota ressoa durante quatro minutos e trinta e três segundos. Parece uma provocação à plateia, mas tenho motivos para crer que ele já foi professor do Fundamental também. O curioso aqui é que, assim como em outras obras de arte, o silêncio vem com essa carga preciosa, abundante e criativa. Em vez de um vazio desperdiçado, é um espaço para criação de sentido em torno daquilo que acabou de ser dito. E é aí que a mágica opera, meus amigos – seja em sala, seja na arte.

No jazz, por exemplo, Miles Davis costumava manipular essas pausas magistralmente, como quem dissesse ao público: “agora é com vocês”. No teatro, Beckett traz o silêncio como a pura matéria da existência. No cinema, gênios como Andrei Tarkovsky usam longas pausas e poucos diálogos para que o espectador participe emocionalmente da cena. Na literatura, Clarice Lispector leva a linguagem ao limite do que ela não pode exprimir e deixa ao silêncio a tarefa de gritar o indizível. Por fim, se as grandes artes não convenceram o leitor, deixo um exemplo muito mais concreto e cotidiano: não há nada mais sedutor, íntimo e elegante do que o silêncio compartilhado entre duas pessoas.

E o professor? Ah, sim, o professor. Bem, começo a questionar minha afirmação inicial e já não sei se o silêncio é valioso só porque os alunos param de falar. Talvez ele seja valioso porque, naquele instante, eles se deixam envolver pelo assunto da aula e pensam por si. E talvez seja justamente por isso que os grandes artistas o tratem com tanto cuidado: eles sabem que há um momento em que a obra já fez tudo o que podia.

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Thaís Bueno
Thaís Bueno
Tradutora, professora de inglês e doutora em línguas aplicada pela Unicamp.
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