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Jornal Tribuna do Norte

Voltamos

Há um alarido novo pelas ruas anunciando um evento que, embora atualíssimo, é um velho conhecido nosso: a volta às aulas está de volta! Como acontece em todo começo de ano, a cidade ganha a alegria vibrante de crianças e jovens e suas mochilas repletas de cadernos e sonhos. Esse acontecimento, evidentemente, é maravilhoso: prova que a esperança segue viva e pulsante, assim como a gente!

Devo estar parecendo um “tiozinho” ou um avô encantado com “nossa linda juventude” (essa referência aos anos 80 vem bem a calhar). Que seja – a barba que deixei crescer me traz essa sensação de madureza, de “quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme”, como diria Drummond. Sim, estou me sentindo mais velho, e isso, claro, não é ruim. Eis aqui, portanto, um professor “veterano” entusiasmado com a volta de seus alunos! A propósito, por onde andavam?

Só sei que agora flutuam pela cidade, nas calçadas ou dentro de carros e utilitários, exercendo seu direito de ir e vir (mesmo que a distância entre os dois verbos demore mais que o desejado por alguns deles, não é mesmo?).

De todo modo, a volta às aulas confirma o caráter cíclico de nossa existência. Há poucos meses, a garotada estava se despedindo da escola e ingressando no aguardado período de férias; agora, eles retornam para um novo ano letivo. Tal movimento evidencia que todo desfecho é, na verdade, uma transição; e todo recomeço, continuidade. É a vida se cumprindo, e se encompridando. Que coisa boa!

A algazarra pode azucrinar alguns ouvidos, é verdade, mas os meus a acolhem como se ouvissem música. Será que esse meu entusiasmo evoca Cazuza, soando “exagerado”, querido leitor? Vou confessar: algumas palavras deste texto foram escolhidas a dedo, para condizerem com a madureza do autor (ou com a sensação de); já a euforia me ocorre a cada recomeço de ano escolar, é inevitável.

Essa reflexão sobre ciclos se cumprindo, a oportunidade de reiniciar e quiçá fazer melhor, a prova de que o aprendizado é permanente e imprevisível, a possibilidade ou necessidade de reinvenção – isso tudo me empolga na Educação!

Claro que os desafios também sempre vêm, acompanhados, tantas vezes, de decepção, desânimo e até sofrimento. Consolo-me lembrando vários clichês da sabedoria popular, lugares-comuns que escondem palácios: nada como um dia após o outro; muitas flores vêm com espinhos; nenhuma noite resiste à luz da manhã… São ciclos, fases – como férias, feriados, dias úteis, nevascas ou mormaços.

Mormente, o que importa mesmo é se alegrar com o pão de cada dia ou com nossa “ração diária de erro” (salve Drummond, outra vez e sempre!) – sem jamais deixar de se indignar com o que exige indignação, por favor. Aqui, porém, não há com que se indignar, pois estou falando, desde o começo, da canção que voltou a tocar por toda a cidade: o alarido de nossos alunos regressando!

Vamos recebê-los com alegria, responsabilidade, paciência e amor – é o que eles merecem, é o que todos merecemos!

Se surgir alguma dificuldade, que cada um repita, como uma oração, esta frase atribuída ao poeta alemão Friedrich Schiller (1759–1805): “Ama em mim o que eu poderia ter sido sob céus mais propícios”.

Que todos tenhamos céus mais propícios para evocar, ofertar e compartilhar neste ano de 2026!

  • As citações de Carlos Drummond de Andrade são dos poemas “Campo de flores” e “A flor e a náusea”.

Conversas sobre Educação

Ricardo Estevão
Ricardo Estevão
Ricardo Estevão é escritor, jornalista, professor de redação e membro da Academia Pindamonhangabense de Letras
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