Bem-vindo ao Jornal Tribuna do Norte   Clique para ouvir áudio Bem-vindo ao Jornal Tribuna do Norte

Jornal Tribuna do Norte

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Você já percebeu que o mundo está ficando cada vez mais cinza?

Ontem mesmo, ao olhar um catálogo de tintas, porque preciso pintar o meu banheiro que está “chocho e capenga” — porém, é um banheiro antigo, tem história e não quero transformá-lo em mais uma clínica dentária — uma coisa meio aleatória: você já reparou como o mundo está ficando cada vez mais cinza? Basta olhar para os carros, prédios, lojas e apartamentos novos. É branco, preto, cinza, bege e, em momentos de ousadia, marrom. Em algum momento, parece que a cor virou sinônimo de exagero.

Quando penso nas casas antigas, a diferença fica ainda mais clara. A casa da avó tinha parede amarela, sofá estampado, azulejo desenhado, toalhas coloridas, potes de todas as cores e uma geladeira cheia de ímãs. Nada combinava perfeitamente e, ainda assim, tudo tinha personalidade.

Agora basta abrir um vídeo de “tour qualquer, conheça o meu apartamento”. A cozinha é branca, o armário é cinza, o sofá é bege e o tapete outro tom de bege. No canto, uma planta fica praticamente responsável por toda a cor do ambiente. E não é feio. Na verdade, costuma ser bonito, elegante, limpo e moderno. O problema é que tudo começa a parecer a mesma imagem de Pinterest. E na boa, acho que nem o Pinterest aguenta mais.

Essa mudança também saiu de dentro de casa. Os carros perderam cor, os prédios ficaram neutros, as embalagens mais sóbrias e restaurantes novos parecem seguir praticamente a mesma estética. Até as redes de fast-food diminuíram aqueles vermelhos e amarelos vibrantes. Tudo ficou mais adulto, chato, sofisticado e sério. Só não sei quando ser adulto passou a significar viver em tons de dia nublado.

Fotografias antigas mostram cozinhas verdes, banheiros cor-de-rosa e carros azuis, vermelhos ou amarelos. Muitos desses objetos hoje seriam chamados de cafonas, mas tinham algo que sinto falta em muita coisa atual: identidade e personalidade.

Não acho que tudo no passado era melhor. O que me interessa é pensar em como começamos a evitar tanto as cores. Cor exige escolha e envolve risco. Uma parede verde pode cansar, um sofá vermelho pode dominar o ambiente e um carro amarelo chama atenção. Cinza, bege e branco são seguros. E essa segurança combina com um mundo preocupado com revenda, tendências, algoritmos e aprovação dos outros. A casa precisa agradar futuros compradores, o carro precisa ser fácil de vender e o restaurante precisa ficar bonito nas fotos. Aos poucos, tiramos uma cor daqui e outra dali. Quando percebemos, quase tudo ao redor segue a mesma paleta.

Não precisamos transformar as cidades em um arco-íris, mas podemos recuperar um pouco da personalidade das nossas escolhas. Pintar uma porta de azul, comprar uma cadeira estranha ou ter um copo que não combina com nenhum outro. Pequenas coisas que dizem: alguém mora aqui.

Nem tudo precisa ser atemporal, combinar perfeitamente ou ter valor de revenda. Algumas coisas podem simplesmente ser verdes. E, sinceramente, o mundo já tem cinza suficiente. E, portanto, o meu banheiro vai ter vida sim. O verde militar e terracota que me aguardem.

Fragmentos - Amanda Emídio

Amanda Emídio
Amanda Emídio
É bacharel em Jornalismo pela Uninter e roteirista formada pela EBAC – Escola Britânica de Artes e Tecnologia. Escritora com cinco livros publicados, transita entre ficção, drama e narrativas LGBTQIA+, sempre explorando afetos, conflitos e tudo aquilo que a gente tenta esconder — mas escreve mesmo assim.
loader-image
Pindamonhangaba, BR
01:16, am, setembro 16, 2026
21°C
céu limpo
68 %
Wind Gust: 10 Km/h
Clouds: 3%
Sunrise: 06:38
Sunset: 17:38

Notícias relacionadas

Memórias e Patrimônios

Memórias e Patrimônios

16 de setembro de 2026
Edital 10516

Edital 10516

16 de setembro de 2026
Edição 10516

Edição 10516

16 de setembro de 2026

Categorias

Redes Sociais

Clique para ouvir áudio