“Olá… fiquei feliz com a postagem sobre o grupo que leva o nome de meu avô paterno…”
Foi assim, com uma mensagem aparentemente simples, que uma história de mais de um século voltou a bater à porta.
Dias antes, eu havia publicado na Pindafetiva uma fotografia e algumas informações sobre o Grupo Ryoiti Yassuda, em Pindamonhangaba. Era mais uma tentativa de resgatar, através de imagens e documentos, personagens e lugares que fazem parte da memória da cidade.
Não imaginava que aquela postagem encontraria um dos descendentes do homem cujo nome a escola carrega.
Era Clovis Yassuda, neto de Ryoichi — ou Ryoiti — Yassuda.
Na mensagem, além de agradecer pela lembrança do avô, Clovis contou que gostaria de enviar algumas páginas de um livro que falava justamente sobre ele, publicado pelo Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil.
Aceitei, naturalmente, com curiosidade.
E foi então que uma simples postagem sobre uma escola de Pindamonhangaba ganhou uma dimensão histórica muito maior.
O livro, intitulado Os Imigrantes Japoneses Precursores, trata de um período pouco conhecido: aquele que antecedeu a chegada do Kasato-Maru, em 1908, marco oficial da imigração japonesa no Brasil.
A publicação lembra que, antes mesmo de o famoso navio aportar em Santos, já havia japoneses no Brasil. Entre esses pioneiros estava Ryoichi Yassuda.
E aqui está uma das partes mais fascinantes dessa história: Yassuda não veio simplesmente em busca de uma nova vida. Ele esteve no Brasil em missão oficial do governo japonês, encarregado de conhecer as condições existentes para a imigração.
Observou. Conheceu. Avaliou.
E voltou ao Japão levando consigo um relatório favorável.
É impossível não imaginar aquele homem atravessando um oceano imenso, em uma época em que viajar entre Japão e Brasil era uma verdadeira aventura, para conhecer um país distante e praticamente desconhecido para seus conterrâneos.
Talvez ele próprio não pudesse imaginar as consequências de sua missão.
Poucos anos depois, milhares de japoneses começariam uma nova vida no Brasil. A imigração japonesa se tornaria parte inseparável da história brasileira, deixando marcas na agricultura, na cultura, na educação, na economia e na formação de muitas comunidades.
E, no meio dessa grande história, aparece Pindamonhangaba.
O nome de Ryoiti Yassuda está na nossa cidade. Está na fachada de uma escola. Está na memória de seus alunos e ex-alunos.
Mas agora sabemos que esse nome também está ligado a uma história que ultrapassa as fronteiras do município e até mesmo as do Brasil.
Clovis contou que, no Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, no bairro da Liberdade, em São Paulo, a trajetória de seu avô é lembrada. E que, no Japão, existe até uma estátua de Ryoichi Yassuda, perpetuando sua memória.
Que curioso destino para um nome que talvez muitos de nós pronunciemos sem conhecer sua verdadeira história.
É assim que a memória funciona.
Às vezes ela fica escondida em uma fotografia antiga. Outras vezes, permanece silenciosa no nome de uma escola.
E, de vez em quando, alguém aparece para nos dizer:
“Esse homem era meu avô.”
Foi o que aconteceu.
Uma postagem sobre uma escola. Uma mensagem de um neto. Algumas páginas de um livro. E, de repente, uma história esquecida ganhou voz novamente.
Talvez seja essa a maior recompensa de quem se dedica a preservar a memória de uma cidade: descobrir que, por trás de um nome, de uma fotografia ou de um prédio antigo, existe sempre uma vida.
E que essas vidas, somadas umas às outras, formam aquilo que chamamos de história.
Por isso, fica aqui meu agradecimento a Clovis Yassuda, por ter confiado à Pindafetiva esse precioso registro familiar.
Seu gesto nos permite conhecer um pouco mais de Ryoichi Yassuda, mas também nos lembra de algo maior:
Pindamonhangaba não está apenas observando a história. Ela também faz parte dela.
E talvez seja esse o verdadeiro sentido de preservar a memória: não deixar que aqueles que construíram o passado se transformem apenas em nomes esquecidos no presente.
Porque, às vezes, basta uma mensagem chegar para que alguém que partiu há mais de cem anos volte, por alguns instantes, a conversar conosco.
E dessa vez, quem bateu à nossa porta foi a própria História.









