Tinha ligado o chuveiro quando a campainha tocou. Enquanto os pingos caíam, enrolou a toalha na cintura e foi ver quem era. Cuidadosamente, afastou um pedacinho da cortina e espiou. Era o cunhado.
Toda vez que o dito-cujo aparecia, era para pedir dinheiro emprestado, com a promessa de pagar no mês seguinte — promessa que nunca se cumpria. Algumas vezes, tentou negar o empréstimo, mas a esposa fazia chantagens amorosas para convencê-lo a socorrer o irmão.
Desta vez, entretanto, não sairia um centavo do seu bolso, pois a esposa havia ido ao cabeleireiro e voltaria apenas no fim da tarde.
— Dim-dom! Dim-dom! Dim-dom!
Depois de quase emperrar a campainha, o cunhado notou que o portão estava sem cadeado e entrou. Passou pelo avarandado e, com a mão na maçaneta, tentou abrir a porta de entrada. Estava trancada.
Dentro da casa, o homem enrolado na toalha se lembrou de que a porta da cozinha estava aberta. Correu para fechá-la.
Ao vê-lo esbaforido, o buldogue da família invadiu a cozinha e começou a pular e a colocar as patas em sua cintura. Bastaria uma ordem austera para o animal obedecer. Mas para evitar que o cunhado soubesse que ele estava em casa, preferiu o silêncio.
Quando tentava se aproximar da porta, o buldogue abocanhou a borda da toalha, puxou-a e saiu correndo até o quintal. O homem foi atrás e ouviu passos. Era o cunhado que se aproximava pela lateral da casa. A única ideia que lhe ocorreu foi a de escalar a jaqueira e se acocorar entre as folhas de um galho robusto.
O cachorro abandonou a toalha e começou a latir repetidamente, enquanto arranhava o tronco da árvore.
— Pitoco, vem cá! Trouxe um petisco pra você.
Como o cachorro não lhe deu bola, o cunhado foi verificar o porquê do alvoroço.
— Não tem nada na árvore, Pitoco. Vai ver era um gato. E ele já foi embora.
Em seguida, o cunhado caminhou na direção da cozinha, entrou na casa e lá ficou por longos minutos.
Quando a lua surgiu, a mulher chegou e encontrou o irmão abrindo uma garrafa de cerveja.
— Cadê seu marido?
— Não sei. Quando saí, ele disse que ficaria assistindo séries.
Depois de uma breve pausa, ela perguntou:
— Que horas é o seu voo?
— Ainda tenho um tempinho. Assim que terminar esta cerveja, irei ao aeroporto.
— Se você quiser, pode deixar comigo que eu entrego a ele.
— Ô, maninha. O assunto é entre mim e seu marido.
O cunhado bebeu o último gole de cerveja e, antes de se despedir, disse:
— Peça ao seu marido para dar uma olhada na jaqueira. Tem um jacu lá. Acho que vai fazer ninho.
Quando o cunhado foi embora, o homem desceu da árvore. A esposa levou um susto ao vê-lo peladão, peladão.
— O que é isso! Ficou maluco?
— Seu irmão apareceu quando eu ia tomar banho. Pitoco arrancou a toalha do meu corpo, e resolvi esconder a minha nudez na jaqueira.
— Fala sério! O que você tem, meu irmão também tem. Devia ter descido, pois meu irmão está indo morar na Europa. Ele ganhou muito dinheiro e, antes de ir embora, veio pagar o que devia a você.









