Esses últimos dias de chuva têm nos obrigado a ficar mais em casa. E ficar mais em casa tem uma consequência curiosa: a gente vai relaxando. Primeiro tira o sapato. Depois abandona o sutiã. Quando percebe, já está vestida com uma roupa que, francamente, não faz jus a quem escreve o Código Diva.
Mas aí vem o verdadeiro problema: sempre aparece um “só vou ali”.
Só vou à farmácia. Só vou ao mercado. Só vou levar minha filha para tomar vacina no postinho. É aqui pertinho, dá para ir a pé.
E é nesse momento que surge uma das grandes questões filosóficas, antropológicas, aristotélicas e shakesperianas da vida adulta feminina: ser ou não ser fashion? Ou, numa versão mais realista: coloco uma roupa decente ou vou com a roupa de ficar em casa?
Eu tenho uma regra muito clara. Se é longe e preciso ir de carro, acabou a brincadeira. Eu me arrumo. Não interessa se vou resolver uma coisa que vai levar cinco minutos. Pegou o carro, tem que existir um mínimo de dignidade envolvida.
Agora, se é aqui no bairro e dá para ir a pé, a roupa de ficar em casa está liberada.
E quando digo roupa de ficar em casa, não estou falando daquele conjuntinho fofo de algodão, com estampa delicada, que aparece nas propagandas e faz a gente acreditar que até para dormir existe uma elegância possível. No meu caso, a coisa é mais… como posso explicar?… bagaceira mesmo.
Tenho basicamente duas categorias: a primeira é a roupa de academia que já deixou de ser roupa de academia há tempos. Ficou velha, esgarçada, desbotada, mas ganhou uma qualidade que nenhuma roupa nova consegue oferecer: conforto absoluto. Ela se ajusta ao corpo como tanto carinho! Você veste e esquece que está vestida.
A segunda é o pijama de algodão. Largo, molinho, com elástico na cintura. Um elástico que, provavelmente, já perdeu mais elasticidade do que meu rostinho de 40 e poucos anos. E justamente por isso, ele é perfeito!
E é assim que eu, eventualmente, saio pelo bairro. Para terror dos meus vizinhos. E, principalmente, da minha irmã.
Porque minha irmã sempre teve uma opinião bastante contundente sobre a minha roupa de ficar em casa. Durante anos, sempre que me encontrava na rua nesses trajes, ela me olhava como se eu tivesse acabado de matar alguém e enterrado o corpo no quintal.
Não precisava falar nada. O rosto dela fazia todo o trabalho.
E eu seguia. Confesso que, sem graça, meio constrangida, sem muita dignidade. Mas bem confortável na minha roupa de academia de 1997. Afinal, era só ali.
Até que, na semana passada, após uma garoa fina e aquela vontade de comer um pão quentinho, eu saí de casa.
E o inimaginável aconteceu! Encontrei minha irmã saindo da padaria.
De camiseta desbotada, uma legging tão esgarçada e larga que mais parecia uma calça de moletom e… uma meia preta… por cima da legging rosa (sim, era rosa).
Pasmem! Uma meia por cima da calça.
Eu olhei para ela. Ela olhou para mim.
E nenhuma de nós precisou dizer absolutamente nada.
Foi bonito.









