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Solidários, sim. Voluntários, nem tanto

O Brasil gosta de se enxergar como um país solidário. E, em muitos aspectos, é mesmo. Basta uma tragédia acontecer para que milhares de pessoas mobilizem doações, organizem campanhas, encham caminhões de alimentos, roupas e esperança. A generosidade do brasileiro é conhecida e admirável. Mas há uma pergunta incômoda que precisa ser feita: se somos tão solidários, por que o voluntariado ainda não faz parte da nossa cultura?

Talvez porque solidariedade e voluntariado não sejam exatamente a mesma coisa.

A solidariedade, muitas vezes, nasce da emoção. Ela responde ao impacto, à urgência, ao sofrimento visível. O voluntariado, por outro lado, é algo menos glamouroso e muito mais transformador: compromisso. Exige agenda, constância, responsabilidade e disposição para estar presente mesmo quando não há câmeras, manchetes ou comoção coletiva.

É justamente aí que mora a diferença.

O país que doa milhões em uma enchente ainda encontra dificuldade para reunir pessoas dispostas a dedicar duas horas por semana a uma instituição social. O mesmo cidadão que compartilha campanhas nas redes sociais nem sempre consegue assumir o compromisso de acompanhar uma criança em seu processo de alfabetização, visitar um idoso ou contribuir regularmente com seu conhecimento profissional.

Não se trata de falta de bondade. Trata-se de prioridade.

Ainda enxergamos o voluntariado como um gesto extraordinário, quase heroico, quando ele deveria ser encarado como parte natural da vida em sociedade. Em países onde a cultura do voluntariado está consolidada, servir à comunidade faz parte da formação cidadã, da educação, das empresas e da rotina das pessoas. Não é um favor. É um valor.

No Brasil, ainda insistimos em tratar o voluntário como alguém que “tem tempo sobrando”. É um equívoco. Os melhores voluntários raramente são os que têm mais tempo. São os que decidiram reservar tempo para aquilo que consideram importante.

A pergunta, portanto, não é se o brasileiro é solidário. A resposta já conhecemos. A questão é se estamos dispostos a transformar essa solidariedade espontânea em compromisso permanente.

Porque causas sociais não sobrevivem apenas de boas intenções. Precisam de pessoas confiáveis. Pessoas que aparecem quando prometeram aparecer. Que permanecem quando o entusiasmo inicial passa. Que entendem que mudar realidades não acontece em um único sábado de ação social, mas na soma silenciosa de pequenos gestos repetidos ao longo dos meses e dos anos.

Talvez seja hora de amadurecermos nossa visão sobre cidadania. Fazer voluntariado não é apenas ajudar quem precisa; é reconhecer que todos somos corresponsáveis pela sociedade que construímos. Não basta sentir compaixão. É preciso assumir compromisso.

O Brasil já provou que sabe ser solidário. O desafio agora é provar que também sabe ser voluntário.

Voluntários - Roberto Ravagnani

Roberto Ravagnani
Roberto Ravagnani
Palestrante, jornalista, radialista e consultor. Voluntário como palhaço hospitalar há 17 anos, fundador da ONG Canto Cidadão, consultor associado para o voluntariado da GIA Consultores para América Latina e sócio da empresa de consultoria Comunidea
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