
No vaivém das ruas Prudente de Moraes e Senador Dino Bueno, ergue-se um casarão que parece resistir ao tempo como quem guarda segredos. Construído em 1923, com inspiração no neorrenascimento francês, o imóvel abrigou famílias tradicionais da cidade e até funcionou como hotel. Batizado de Solar da Tia Rosita, homenageia a professora Rosa Corrêa Guimarães, que lecionou no Grupo Escolar Alfredo Pujol.
Foi a partir dos anos 1950, porém, que o casarão viveu seu período mais humano e luminoso. Com a morte do patriarca Luiz Francisco Corrêa Guimarães — músico, festeiro e organizador das tradicionais festas de São João —, dona Rosita decidiu lotear a antiga chácara. Pouco antes de falecer, a casa foi adquirida pelo sobrinho Eloy Corrêa Guimarães, que ali passou a viver com a família. Naquele tempo, o Solar ainda não era monumento. Era casa viva. O casarão respirava cultura sem sequer perceber.
Entre os filhos de Eloy, três deixaram marcas profundas na memória pindamonhangabense.
Ana Maria Corrêa Guimarães — atriz, jornalista e escritora — iniciou sua trajetória artística no começo dos anos 1960, integrando o Teatro Estudantil criado por seu irmão Oto, também autor das peças encenadas pelo grupo. Trabalhou com o cineasta Amácio Mazzaropi e alcançou projeção nacional ao interpretar a filha do cangaceiro em O Lamparina, um dos maiores sucessos do artista. Antes da fama, já colecionava títulos: Rainha do Carnaval de 1963, Princesa dos Jogos Abertos do Interior e Miss Pindamonhangaba — homenagem concedida pelo inesquecível radialista Jota Marcondes, numa época em que ainda não existia concurso oficial de miss na cidade. Mais tarde, quando os concursos passaram a acontecer regularmente, Ana Maria apresentou quase todos. Ao lado de outros estudantes, também participou de um programa juvenil na Rádio Difusora, criado pelo radialista Percy Lacerda. Sua ligação com o Solar ultrapassa a memória afetiva: tornou-se compromisso permanente com a preservação da alma pindamonhangabense.
Otto — ou simplesmente Oto — Corrêa Guimarães transformou inteligência em carisma. Professor, engenheiro, músico e apaixonado pelas artes, tornou-se figura admirada por gerações. Foi no Instituto João Gomes de Araújo que criou o TEP — Teatro Estudantil de Pindamonhangaba —, abrindo espaço para jovens talentos numa época em que o teatro escolar ainda engatinhava no interior paulista. Em 1968, ganhou fama popular ao representar a cidade no programa “Cidade Contra Cidade”, do SBT, sendo eleito o homem mais bonito da disputa. Décadas depois, continuava querido pela irreverência, pelo talento musical e pela criação do grupo “Lá Bamba”.
Já Celso Guimarães carregava a alegria como identidade. Seu nome tornou-se sinônimo de carnaval. Folclórico, divertido e apaixonado por marchinhas, transformou-se em um dos maiores foliões da história local. A cidade eternizou sua memória no tradicional Troféu Celso Guimarães, uma das premiações mais simbólicas do Festival de Marchinhas Carnavalescas de Pindamonhangaba.
Hoje tombado pelo município, o Solar da Tia Rosita permanece de pé como elo entre gerações. Mas mais importante que a imponência de sua arquitetura é aquilo que nenhuma restauração consegue reproduzir: a vida que existiu ali dentro. Porque algumas casas deixam de ser apenas construções. Tornam-se memória coletiva. E o velho Solar, silencioso na ladeira da Prudente de Moraes, continua contando histórias para quem ainda sabe escutar.








