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Rugas

As deusas sabem que nunca pedi por rugas, mas aqui estão elas, e confesso que, apesar de não ter gostado quando elas começaram a se esboçar no meu rosto anos atrás, agora nutro um prazer secreto em vê-las no meu sorriso. E falo “rugas” mesmo; eu até poderia atenuar o drama chamando-as de “linhas de expressão”, mas aí daria na mesma que falar “solitude” em vez de “solidão”, ou “melhor idade” em vez de “velhice”. Podemos escolher as palavras que nos convêm, aquelas das quais damos conta, mas no fim é tudo a mesma coisa: o corpo humano se deteriora com o tempo e não há botox, plástica ou hábito de vida saudável que reverta isso.

[Olho meu rosto no espelho, pela manhã. Finjo um sorriso e vejo as pálpebras se enrugando nos cantos dos olhos. Fecho a cara.]

E quando o assunto é idade não se pode esquecer que, para mulheres, o processo de envelhecimento é geralmente bem mais dramático que para os homens, pelo simples fato de que vivemos em um mundo que nos cobra juventude eterna, ao mesmo tempo em que nos enfia goela abaixo o discurso da “sabedoria” nas rugas. “As rugas revelam a mulher sábia que existe em você”. O problema é quando as rugas chegam e a sabedoria, não. Além do que, sair por aí se autoproclamando um poço de sabedoria também não me parece uma coisa muito sábia (mas isso é tema pra outra crônica).

[Analiso meu sorriso nas fotos, e a tentação de jogar ali uns sete filtros diferentes é pungente.]

Nesse cenário, há quem recorra à tática de se inspirar em mulheres que souberam envelhecer com dignidade. Já fiz muito isso; Rita Lee, Anna Magnani e Clarissa Pinkola Estés sempre foram meus grandes exemplos. Em vez de recorrer a plásticas infinitas, foram aos poucos assumindo e dando boas-vindas às bruxas que sempre moraram nelas. Mas isso de se inspirar em mulheres como elas não funciona para sempre; na verdade, só funciona até certo ponto, pois poder escolher como se quer envelhecer é um luxo permitido apenas a quem tem dinheiro para isso.

Enfim, rugas, discursos e modelos de inspiração à parte, talvez a grande verdade seja esta: cada uma de nós sabe onde o calo aperta, e a forma de lidar com o próprio envelhecimento tem que vir, inevitavelmente, de dentro.

[Observo mais uma vez minhas rugas. Sem me dar conta, começo a gostar delas (aquele prazer secreto mencionado no início da crônica). Lá fora, em conversas informais, digo que não, que as rugas não me agradam, que surgiram de repente e que não sei o que fazer com elas. Mas, na intimidade do meu espelho e das minhas memórias, vou aos poucos percebendo que elas me trazem lembranças do meu pai, que morreu há cinco anos. Olho de novo e constato: eu gosto das minhas rugas porque são iguais às que meu pai tinha quando sorria.]

Ctrl + Cultura - Thaís Bueno

Thaís Bueno
Thaís Bueno
Tradutora, professora de inglês e doutora em línguas aplicada pela Unicamp.
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