Dia desses, me dei conta de uma coisa que me deixou preocupada: eu tinha adquirido o hábito de editar meu braço em praticamente todas as fotos que posto. Não é força de expressão. Se o braço aparece, existe uma boa chance de eu olhar para ele antes de olhar para qualquer outra coisa. Dependendo da posição, já penso no que precisa ser corrigido. E, se não der para esconder na hora da foto, o recurso tecnológico está aí para isso. Para alguma coisa ele tinha que servir.
Tenho uma explicação razoavelmente objetiva. Já pesei bem mais do que peso hoje. Emagreci, meu corpo mudou, mas algumas marcas ficaram. Uma delas é aquela espécie de bolsinha de gordura na parte de baixo do braço. Não gosto dela. Se pudesse escolher, provavelmente escolheria um braço diferente.
O que me deixou preocupada foi perceber que não estava fazendo isso de vez em quando. Eu estava fazendo sempre.
E antes que alguém pense que esta é uma coluna sobre “se aceite como você é”, já aviso: não é. Eu não virei uma pessoa iluminada da noite para o dia. Continuo afinando a cintura nas fotos, escondendo o que acho que fica melhor escondido, escolhendo ângulo, luz, pose e tudo mais que a tecnologia e a experiência de quem já tirou umas boas milhares de fotos permitem.
Também não vou fazer aquele mea culpa hipócrita: criticar a edição enquanto continuo editando minhas próprias fotos. Eu edito. E muito. Se pudesse, me editaria ao vivo, em carne e osso. E tá tudo bem. Ou não.
Porque a questão que começou a me incomodar não é a edição. É perceber o quanto eu preciso dela. Em que momento passei a fotografar não o corpo que tenho, mas o corpo que gostaria que as pessoas imaginassem que eu tenho?
E isso diz respeito a uma coisa maior. A mulher aprende, ao longo da vida, uma coleção enorme de regras sobre como deve parecer. Depois dos 40, elas não desaparecem. Apenas ganham outras embalagens: envelheça, mas não deixe o envelhecimento aparecer demais; emagreça, mas não deixe sobrar; cuide-se, mas não pareça obcecada; esteja bonita, mas naturalmente. É uma conta difícil de fechar.
O curioso é que, aos 47, eu já deveria ter alguma intimidade com esse corpo. Ele está comigo há bastante tempo. Já passou por gravidez, emagrecimento, engordamento, academia, falta de academia e algumas “medidas drásticas” bem questionáveis. Ainda assim, basta uma foto ruim para eu olhar para ele como se tivesse acabado de conhecê-lo e pensar: “Não quero que me liguem a esse corpo!”
Continuarei a editar minhas fotos? Provavelmente. Vou escolher a melhor luz, o melhor ângulo e, quando achar necessário, farei aquele pequeno ajuste na cintura. Sem hipocrisia. Mas agora, antes de apagar aquela bolsinha de gordura, pelo menos vou saber o que estou fazendo.
Afinal, a foto é minha e eu continuo tendo o direito de escolher como quero aparecer. E vou sempre optar por aparecer bonita. Só não quero mais fingir que não existe diferença entre escolher uma imagem e ter vergonha da pessoa que aparece nela.
E, se amanhã eu postar uma foto com o braço sem edição, não chamem de aceitação corporal. Pode ser só preguiça de abrir o aplicativo.









