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QUEM CASA QUER CASA SEM GOTEIRA

Recentemente casado com Tonha Deus-me-livre, Zé Preguiça é um lavrador de meia enxada.

Certa noite, nuvens mal-humoradas despejaram um temporal sobre a região onde eles moravam.

— Ô Zé! Num guento mais falá procê consertá o teiado! Tá moiano tudo aqui drento! Inté nosso corchão tá ficano ensopado, só que dessa veis não é mijo seu.

Desviando um móvel pra lá, outro pra acolá para fugir das goteiras, Zé Preguiça despreguiçou a língua.

— Cê tá muito recramona. Já disse procê que vo dá um jeito. Tô juntano dinhero pra cabá cas moiadera.

— Eu divia te ovido a mamãe e me casado co Dito Mão-de-vaca.

O debate não foi pra frente porque havia ainda um pingo de amor. Mas, naquela noite ninguém dormiu. Nem o galinheiro.

No dia seguinte, Zé Preguiça foi à cidade e voltou com cinco baldes e dois guarda-chuvas.

— É só ponhá os barde inrriba do corchão que cabo a moiadera. Cas sombrinha nóis num móia as cabeça. Tá bão procê agora?

— Bão, bão, num tá. Cê divia tê comprado teia.

— Recrama não, muié! Juda eu!

Na noite seguinte, nuvens mais carrancudas engrossaram as goteiras. Zé conseguiu dormir, com os guarda-chuvas armados sobre o colchão. Tonha não, por causa do plic-ploc-plim-ping e do ronco do marido.

De manhãzinha, ainda chovia. Zé Preguiça se espreguiçou e não viu a mulher na cama.

— Cadê a rabugenta?

Ele foi à casa dos sogros.

— A Tonha ta aí?

— Tá não. Conteceu arguma coisa? Cê brigô coela? — perguntou o sogro picando fumo.

— Briguemo, nada.

— Óia, óia, óia. Tô de oio nocê.

Zé Preguiça inventou um sorriso e disse:

— Bão. Tô ino. Cê ela vinhé aqui, fala prela qui tô pricurano ela.

E lá foi ele, perguntar pela mulher. Já estava desanimado quando alguém lhe disse:

— Eu vi ela ino pra lá.

“Prá lá” era a direção da casa do ex-namorado da Tonha.

Zé Preguiça apressou os passos e, quando chegou ao local, viu a casa do Dito esparramada no chão. O vento pugilista não teve piedade da moradia.

Pensando que Tonha estivesse lá dentro, Zé Preguiça começou a chorar. De repente, a mulher apareceu acompanhada do Dito.

— Onde cê tava? Pricurei ocê quenem loco. Vamo vortá pra casa.

Ela abraçou o Dito e disse:

— Cocê num vorto mais. Neim amarrada.

— Vorta sim. Cê é MINHA muié.

— Eu ERA sua muié. Agora sô do Dito.

Zé Preguiça olhou para os escombros e disse:

— Vai trocá nossa casa pra morá debaixo de tijolo? Tá loca, muié?

Ela e o Dito caminharam até o fim do terreno, onde estava armada uma barraca de camping.

— Pelo meno aqui num chove.

Proseando - Maurício Cavalheiro

Maurício Cavalheiro
Maurício Cavalheiro
Membro da Academia Pindamonhangabense de Letras, da UBT União Brasileira de Trovadores e da ABRASSO Academia Brasileira de Sonetistas. Finalista do Prêmio Barco a Vapor – 2024 e do 1º Prêmio Bem-te-vi de Literatura para a Infância – 2025. Possui prêmios literários no Brasil e no exterior, e livros publicados nos gêneros poesia, infantil, romance, teatro, contos e cordel.
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