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Jornal Tribuna do Norte

Por que a gente precisa ler?

Preocupam-me a esterilidade de algumas ações importantes, a inutilidade de gestos ou discursos cuidadosamente elaborados. Comumente chamadas de perda de tempo, são muitas as atitudes que resultam em nada ou ficam aquém do resultado almejado. Em educação, isso acontece algumas vezes – especialmente quando o assunto é estímulo à leitura.

Não faltam iniciativas bem-sucedidas, cuja beleza enche os olhos e anima o coração da gente. No entanto, a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou que o país hoje tem mais não leitores do que leitores; além disso, o levantamento revelou que, na escola, o interesse por livros cai conforme a criança vai crescendo. Ora, enquanto for preciso “catequizar” nossos alunos sobre os benefícios da leitura, muito ainda terá de ser feito, principalmente em tempos em que o excesso de telas suga nossa atenção e ameaça nossa cognição.

O leitor poderá discordar do termo “catequizar” citado acima, mas foi só uma metáfora para dar ênfase ao meu descontentamento. De fato, embora seja necessário, em algum momento, explicitar aos alunos os ganhos vinculados à prática leitora, o incentivo à leitura precisa ser muito mais envolvente, irresistível – a fim de que o aluno sinta na pele – no corpo, na alma! – vontade de ler e, a partir disso, experimente o bem que a leitura opera na vida da gente.

“Que bem, professor?”, um aluno poderia perguntar. “Que bem é esse que motiva tanta gente a insistir nessa ladainha de que eu preciso ler, ler, ler?”

Uau! É hora de não ser estéril nem inútil. Qual a melhor resposta?

Veja só, a leitura faz parte de mim desde a minha infância, um amor que começou cedo e que durará para sempre, pois só me faz bem. Tenho, inclusive, “provas materiais” desse “romance”: meus quartos (no sítio e na cidade) são bibliotecas – adoro ter meu sono vigiado por uma multidão de livros! Carrego sempre um deles na mochila e trago na ponta da língua, com frequência, uma leitura que me marcou. Quer ver?

“Quem não tem jardins por dentro não planta jardins por fora” – Rubem Alves, maravilhoso!

Bem, ainda não respondi. Disse que gosto dos livros vigiando meu sono: uma escolta silenciosa a me abençoar com sua sabedoria e sua ternura, as quais só acesso quando os abro – livro não foi feito para ficar fechado ou esquecido num canto. Isto precisa ser dito: o estímulo à leitura começa pela ação, pelo exemplo encarnado, ou seja, pais e professores precisam ler. É quando me vem um aforismo de Drummond: “É bom ler, e ótimo ter lido”.

“Noto seu entusiasmo, mas você ainda não nomeou o bem que os livros trazem”, insistiria o aluno.

Ah, parte da resposta está na própria pergunta: meu entusiasmo vem dos livros. Muito do que sou tem sua origem neles: minha fé na humanidade, minha esperança na vida, vislumbres do mistério da nossa existência, tanta coisa boa!

“Mas isso a gente encontra só nos livros?” Não, claro que não. Na aventura da vida, os livros servem para encurtar distâncias e para intensificar experiências, a ponto de fazer com que a gente sinta na pele – no corpo, na alma! – o dom sublime de existir, de viver, de ser alguém! Uma vida com livros é uma vida com mais consciência, sonhos e possibilidades. Uma vida com livros é uma vida com mais sentido! Viu?

Conversas sobre Educação - Ricardo Estevão

Ricardo Estevão
Ricardo Estevão
Trabalha há 17 anos como professor de Redação no Sistema Anglo de Ensino, é formado em Jornalismo e Letras e possui especialização em “Língua Portuguesa: gramática e uso”, curso da Unitau (Universidade de Taubaté) em que, atualmente, é professor de duas disciplinas: Aspectos Morfossintáticos e Estilísticos Constituintes do Gênero Literário e Produção de Textos. Membro titular da Academia Pindamonhangabense de Letras, possui dez livros publicados (ficção, poesia e ensaio). Um deles, seu romance juvenil “Bob Kurt”, foi selecionado pelo PNLD Literário 2021 (Programa Nacional do Livro Didático) e distribuído para escolas no Brasil inteiro. É também colunista do centenário jornal Tribuna do Norte, de Pindamonhangaba. Como professor, defende uma Educação centrada no afeto de ensinar e na alegria de aprender. Desenvolve há 12 anos o projeto Liga da Leitura que estimula a convivência com livros e inspira diálogos sobre experiências leitoras a partir do protagonismo dos estudantes.
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