As estrelas começaram a ir embora quando o pombo azul apareceu e pousou ao lado do menino vestido com uniforme escolar. O menino estava deitado na calçada, em papelões molhados de sereno. A mochila era o seu travesseiro.
O pombo perguntou por que ele estava naquele chão duro. Ele respondeu:
— Eu moro aqui.
O pombo arrulhou, preocupado.
— Aqui não é uma casa.
— Eu sei. É que não me lembro de onde eu moro. Também não sei quanto tempo faz que fugi.
O pombo circundou o menino e perguntou:
— Fugiu? Por quê?
O menino não queria dar explicações, por isso, fechou os olhos, virou-se de bruços e fingiu dormir. Então, o pombo subiu nas costas dele e começou a lhe dar bicadinhas na cabeça. Só parou quando o menino respondeu:
— Se eu responder você vai me deixar em paz?
A avezinha não disse nada.
— Fugi porque ninguém gosta de mim. Na escola me chamam de cabeça oca. Em casa, minha mãe grita para toda a vizinhança ouvir que sou preguiçoso. Minha irmã só sabe dizer que a minha feiura dói em quem me olha. E, para o meu pai, eu sou um bobão e vou morrer bobão só porque converso com os bichos.
Ao ver que os olhos do menino estavam cheios de tristeza, o pombo perguntou:
— Se eu disser que os pingos de chuva são verdes, você acreditará em mim?
— Verdes? Claro que não! — o menino riu. — Pingos de chuva são água, e água não tem cor.
— E se eu disser que gatos latem e cachorros miam? Acreditará em mim?
— Você também acha que eu sou bobo?
— Não. Não acho. Só acho que você não deveria acreditar em tudo o que dizem de você.
O menino mergulhou nas palavras do pombo, refletiu e concluiu:
— Eu não sou preguiçoso. Só não gosto de arrumar meu quarto, nem de fazer as tarefas da escola. Prefiro ficar conversando com os bichos.
Depois de um breve silêncio, o menino perguntou:
— Será que eu tenho preguiça?
O pombo explicou:
— Preguiça é não fazer nada. Nadinha mesmo. E você faz: conversa com os animais.
— Com animais, plantas e flores — acrescentou o menino. — Até com o rio eu converso.
Por um momento, o menino ficou em paz. Mas não demorou a se entristecer.
— O que foi agora?
— As palavras da minha irmã não saem da minha cabeça: “Você é feio. Muito feio”.
O pombo opinou:
— Ninguém é feio. Você, por exemplo, não é feio nem aqui nem na lua. E, além disso, você tem um coração muito bonito.
O menino sorriu e perguntou, curioso:
— Você consegue enxergar o coração das pessoas?
— Consigo, sim.
Nesse instante, uma pomba apareceu nervosa. Ela disse ao pombo:
— Você está demorando. Era para você ter voltado com notícias do menino. O avô dele pediu para você ir embora agora.
O menino estranhou a menção ao avô.
— Vocês conhecem meu vô de onde?
— Nós morávamos no quintal da casa dele. Lembramo-nos de você desde que começou a engatinhar.
A pomba, impaciente, reclamou ao pombo:
— Agora não é hora de relembranças. Vocês terão toda a eternidade para conversar. Vamos embora agora!
— Eu só irei quando o avô dele chegar.
O menino pensou que os pombos estavam fazendo uma grande confusão.
— Meu vô não vai chegar. Faz tempo que ele foi morar no céu!
— Nós sabemos. Também moramos com ele lá.
Nisso, os primeiros raios de sol começaram a recolher o sereno. O menino se sentou no papelão. Havia manchas de sangue e marcas de pneus no uniforme. Lentamente, o menino foi fechando os olhos.
Logo em seguida, uma cachoeira de luz desceu do céu. Um homem de barbas brancas e compridas apareceu, caminhou até o menino e o acolheu no colo. Em seguida, o homem levou o menino até a cachoeira, acompanhado pelos pombos, e todos desapareceram.









