Basta o cheiro do café invadir a cozinha pela manhã para que algo aconteça dentro de nós. O corpo desperta e uma lembrança chega sem pedir licença: a casa da avó, a mesa do sítio, alguém que já partiu. Ninguém decide lembrar. Simplesmente acontece.
Esse gesto banal guarda um segredo sobre a inteligência humana: não pensamos só com palavras. Pensamos com o corpo, os sentidos, a memória e as emoções. O neurocientista António Damásio, em O Erro de Descartes, mostrou que razão e emoção não são inimigas. Pessoas que, por lesões cerebrais, perdem a capacidade de sentir passam a ter dificuldade até para escolhas simples, mesmo com o raciocínio lógico intacto. Sem sentir, decidimos mal.
Agora pense nos robôs de conversa, como o ChatGPT. Treinados com bilhões de textos, eles aprenderam a prever qual palavra vem depois da outra. Peça, e o robô escreverá um parágrafo comovente sobre o aroma do café coado na hora. Mas ele nunca sentiu esse cheiro. Nunca teve avó, nunca acordou cansado, nunca se emocionou numa cozinha. Conhece todas as palavras sobre o café. Nunca conheceu o café.
Isso não torna a tecnologia menos poderosa. Em 2024, Geoffrey Hinton e John Hopfield receberam o Nobel de Física por descobertas que fundamentaram as redes neurais artificiais. A notícia correu jornais e telejornais do mundo inteiro. E Hinton, um dos pioneiros da área, aproveitou os holofotes para alertar sobre os riscos da própria criação. Quando o inventor pede cautela, quem somos nós para ignorar?
A máquina pode inventar um fato com total segurança e escrever sobre ele de forma convincente. Quem percebe o erro é alguém que viveu, que tem contexto, que sente aquele incômodo: isso não está certo. A pergunta do nosso tempo, portanto, não é se as máquinas ficarão mais inteligentes. Elas vão. A pergunta é: e nós?
Paulo Freire ensinou que educar é formar pessoas capazes de ler o mundo, e não apenas as palavras. Hoje, ler o mundo inclui ler o que a máquina escreve: desconfiar, conferir, perguntar de novo e decidir. No trabalho, vai se destacar quem souber usar a máquina sem entregar a ela o próprio discernimento.
É nesse ponto que a educação profissional se torna decisiva. A Fatec Pindamonhangaba, unidade do Centro Paula Souza, forma tecnólogos em áreas como Gestão de Negócios e Inovação, Manutenção Industrial e Processos Metalúrgicos, com ensino público, gratuito e ligado às demandas reais do Vale do Paraíba. O desafio em cada sala de aula é o mesmo: unir competência técnica e senso crítico.
O robô aprendeu a escrever sobre o café. Cabe a nós, e às instituições que formam pessoas, garantir que a experiência, a emoção e o julgamento humano continuem guiando o que fazemos com essa tecnologia.









