Hoje, começamos de um jeito um pouco diferente. Vou contar histórias corriqueiras, dessas que acontecem com pessoas reais, algumas das quais conheço muito bem. Evidentemente, não citarei nomes, por motivos óbvios. A intenção é trazer um pouco de leveza cômica, ainda que a vida, por vezes, tenha um senso de humor bastante questionável.
Em 1976, numa certa cidade, vivia uma garotinha que adorava testar os limites das pessoas, principalmente os de seus pais.
Maria adorava o pai, João, que trabalhava arduamente como cobrador de ônibus. Quando chegava em casa, ele a pegava no colo e a enchia de mimos. Maria, por sua vez, subia em suas costas, mordia-o e lhe dava tapas. Era uma demonstração de carinho um tanto peculiar. A mãe sempre a advertia, mas não adiantava muito. Quando ia à escola, Maria costumava afanar algumas moedas que os pais guardavam dentro de uma lata vazia de feijão. Eles sabiam, mas faziam vista grossa. E assim a menina foi mantendo esse hábito por um longo tempo, até que, certo dia, foi brincar na casa de uma coleguinha chamada Joana.
Maria nutria certa inveja da menina, pois, em seu julgamento infantil, Joana era mais bonita do que ela. Isso a incomodava e, sempre que podia, fazia alguma coisa para deixar a colega em maus lençóis.
Entre uma brincadeira e outra, a pequena descobriu que a mãe de Joana, uma costureira, acabara de receber o pagamento por um serviço. Era o equivalente a cinquenta reais nos dias de hoje. Não deu outra. Maria viu a nota e não perdeu a oportunidade. Roubou o dinheiro, saiu de fininho, como se nada tivesse acontecido, foi embora para casa e escondeu a quantia debaixo do travesseiro.
No dia seguinte, ouviu alguns cochichos que vinham da conversa entre sua mãe e a vizinha, a mãe de Joana. A mulher estava aflita, chorava muito e, desolada, não conseguia entender onde o dinheiro havia ido parar. Maria escutou tudo atentamente, mantendo-se bem quietinha. Alguns minutos se passaram até que ela correu para conferir a prova do crime. Mas, pasmem, o dito-cujo já não estava lá. Ao se virar, deparou-se com a própria mãe, parada à porta do quarto, segurando a nota.
— Está procurando por isto aqui? — perguntou.
Maria ficou branca.
A mãe lhe deu cinco cintadas, entregou-lhe a nota e ordenou, com rispidez:
— Agora você vai até lá, vai pedir desculpas e devolver o que roubou.
Maria protestou, aos gritos:
— Eu não vou!
Estava com as pernas ardendo de dor quando a mãe lhe deu mais uma cintada.
— Ah, você vai, sim!
E lá foi Maria, marchando de raiva, mas foi.
Ao chegar à casa da colega, deparou-se com uma cena tenebrosa. Joana estava toda machucada. Roxa, encolhida em posição fetal, chorava sem parar. Os próprios pais, convencidos de que a menina havia roubado o dinheiro, acusaram-na injustamente e a espancaram violentamente.
Apavorada, ainda trêmula pelo susto e pelo medo, Joana contou à mãe de sua colega o que realmente havia acontecido. A mãe, então, olhou para Maria e disse:
— Está vendo o que você fez?
Está vendo o resultado da sua arte, sua garota mal-intencionada?
A moral da história? O justo sempre paga pelo pecador. Nem sempre é quem comete o erro que paga por ele. Às vezes, a nossa falta de caráter encontra abrigo na inocência alheia, e alguém que nada fez acaba carregando uma culpa que não lhe pertence. Maria roubou o dinheiro, mas Joana foi quem sentiu o peso da acusação. E há algo particularmente cruel nisso: o culpado pode até ser descoberto, mas o sofrimento que provocou nem sempre pode ser desfeito. Antes de julgar alguém, convém perguntar se conhecemos toda a história. Afinal, entre a suspeita e a certeza existe um abismo, e há pessoas que, por não terem voz suficiente para se defender, acabam condenadas por aquilo que jamais fizeram. A injustiça não começa apenas quando alguém mente. Começa também quando os outros decidem acreditar sem se dar ao trabalho de descobrir a verdade.









