Sinto dores todos os dias. Estou morando num quarto com janela para o mar. Sempre que consigo me debruço nela para espiar as gaivotas e os barcos coloridos. São barcos de pescadores. O do meu pai é o de casco azul e amarelo.
Hoje faz trinta e dois dias que ele saiu para pescar e não voltou. Minha mãe, com mares nos olhos, diz que ele pode ter sido engolido por alguma tempestade. Eu não acredito, pois meu pai nada melhor do que a maioria dos peixes. Se, por acaso, o barco dele tivesse sido avariado por alguma força do mar, ele teria conseguido nadar até um local de terra firme. Eu acho que foi isso que aconteceu.
Quando ficar curado, vou pedir emprestado o barco do meu tio para procurar meu pai. Fiquei pensando nisso o dia inteiro.
Para acalmar os pensamentos, decidi escrever sobre a minha estada aqui, no caderninho que a minha mãe me deu. Ela sabe que eu gosto de inventar histórias com pedacinhos reais da vida.
Lembro-me bem de que, nos primeiros dias de internação, não tive vontade de escrever. Mas, hoje, acordei sentindo necessidade de registrar, com todas as letras, as oscilações dos meus dias neste quarto.
Começo escrevendo que agora é madrugada. Não tem ninguém aqui comigo. A enfermeira veio me medicar, me desejou boa noite e foi embora. Minha mãe não pôde ficar comigo. Ela tem que cuidar da minha irmãzinha.
Fico bastante tempo deitado, com fios conectados ao meu corpo. São eles que levam sangue, soro e outros medicamentos ao meu organismo. Estou passando por um tratamento complicado.
Fiquei doente quando o meu nariz começou a sangrar, e manchas roxas apareceram em meu corpo. Pensei que fosse por causa do futebol: sofri muitas caneladas e uma bolada quase arrancou o meu nariz. Apesar disso, continuei jogando, pois era a final do campeonato.
O jogo estava empatado até que, no último minuto, recebi a bola na entrada da grande área e chutei. A bola fez uma curva, enganou o goleiro e entrou no ângulo. Vencemos por 2 x 1.
Em casa, minha mãe tentou estancar o sangramento, mas não conseguiu. Como meu pai estava pescando, ela pediu para o irmão dela nos levar ao hospital. E lá, depois de alguns exames, descobriram que tenho leucemia e que preciso, urgentemente, de um transplante de medula óssea. Mas está difícil encontrar um doador compatível.
Tenho sonhado com meu pai desde que me colocaram neste quarto. Em todos os sonhos ele aparece num barco dourado entre as nuvens, ancora na janela e me convida para navegar com ele. Eu obedeço: entro no barco e singramos na imensidão.
Certa vez, ele ancorou na lua e lançou a rede para pescar estrelas-peixe. A rede ficou cheia, mas ele as devolveu ao céu para não escurecer o mundo.
Estou cansado, deitado e de olhos fechados. Minha avó acabou de chegar. Está dizendo, enquanto chora, que a vida é injusta e que eu não merecia sentir tantas dores.
Se eu tivesse forças, diria que as dores físicas eu até suporto. O que mais me dói é a saudade de meu pai.
Mas, nesta noite, esta dor vai desaparecer. Meu pai acabou de ancorar. Veio me buscar para navegar com ele pelos mares da imensidão.









